quinta-feira, 14 de agosto de 2008

SATISFAÇÃO COM O PESO CORPORAL E BEM ESTAR SUBJETIVO

SATISFAÇÃO COM O PESO CORPORAL E BEM ESTAR SUBJETIVO
LUCIANA MELLO DE QUEIRÓS MATTOSO

RESUMO

O bem-estar subjetivo (BES) e a satisfação com o peso corporal (SPC) vêm tornando-se dois importantes objetos de pesquisa dentro da psicologia atual. Há fortes indícios apontando para a existência de uma estreita ligação entre ambos, sendo uma avaliação positiva do peso corporal uma forte variável para a experiência do BES.
O objetivo do presente trabalho é ser um estudo exploratório visando examinar as múltiplas variáveis interligadas com a avaliação, satisfação e importância dada ao peso corporal, o que faz com que esta questão torne-se tão importante para o BES.
Para atingir o objetivo do estudo, 60 participantes responderam a um questionário com 28 frases incompletas acerca da problemática do peso corporal para o indivíduo e como este acredita que a mesma seja vivenciada por outras pessoas.Conclui-se pelos dados levantados que existem muitos preconceitos relacionados ao peso corporal, e que a experiência da insatisfação com o peso corporal está associada a emoções negativas, redução da auto-estima, prejuízos na vida social, amorosa e sexual (itens importantes para o BES). A maioria dos participantes (80%) acredita que pessoas insatisfeitas com o peso corporal sentem-se piores emocionalmente. Adicionalmente, pode-se perceber que há uma diferença na percepção das mulheres e dos homens obesos, principalmente no que diz respeito a itens direta ou indiretamente relacionados ao BES, tais como emoções negativas e prejuízos na vida social, que seriam maiores em mulheres obesas. Observou-se muitas crenças distorcidas relacionadas com o peso corporal, suas causas (e.g., 31% acreditam que a obesidade é resultado de descontrole alimentar e 34% atribuem à dificuldades emocionais), conseqüências (para 55% dos participantes afetaria a vida de uma maneira geral) e métodos buscados para a perda de peso (65% buscam dietas, principalmente com métodos radicais). Do grupo de participantes, 75,54% das mulheres gostaria de perder peso, enquanto que 39,99% dos homens gostaria do mesmo.



I- INTRODUÇÃO

A análise proposta avalia a criação e imposição social de um padrão estético, ou seja, um princípio de “boa forma”- observado claramente na mídia e outros veículos de comunicação- como objetivo a ser alcançado, e, na impossibilidade de alcançá-lo, na busca por alternativas que sustentem essa busca.
É nesta medida que comportamentos de busca de um peso corporal “aceitável” são identificados, como, ainda, preconceitos, críticas e auto-críticas. Assim, a busca por um corpo perfeito – ou pelo que se elegeu como corpo perfeito – é o alvo final de uma batalha. Dietas, exercícios praticados à exaustão, produtos e aparelhos para reformular a silhueta e sentimentos positivos e negativos foram constatados por este estudo, na intenção de recolher dados para corroborar o comprometimento do bem-estar subjetivo, fundamental para a saúde afetiva e emocional das pessoas.
Os distúrbios da imagem corporal (e.g., anorexia e bulimia nervosa), reflexos da imposição cultural e massificante pelos meios de comunicação em busca de um corpo tido como garantia de sucesso sexual e pessoal, são enquadrados na pesquisa, de modo a ratificar a urgência por um questionamento de tais valores contemporâneos.
A relação sucesso pessoal versus forma física ainda é extremamente forte no imaginário, e os estudos indicam que os indivíduos sentem-se bem quando estão em paz com o espelho e a opinião alheia. Entretanto, neste trabalho questiona-se as formas de avaliação pessoal no quesito “forma física” tendo em vista a complexidade da percepção humana, e, principalmente, de sua avaliação do que é percebido.
Para o ramo da psicologia, discutir o que torna as pessoas vulneráveis socialmente só faz contribuir para uma descoberta do outro por si mesmo, para o engrandecimento pessoal e para a busca da felicidade. Este trabalho pretende somar à discussão sobre o BES a influência da estética corporal neste conceito, sua aplicação prática e o retrato do pensamento comum na relação corpo/mente.

1- FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA:

BEM-ESTAR SUBJETIVO E SATISFAÇÃO COM O PESO CORPORAL:
Segundo Diener (1984), na literatura referente ao bem-estar subjetivo está incluída a felicidade, a satisfação com a vida e a preponderância de sentimentos positivos. Ainda segundo o autor, as definições encontradas acerca do bem-estar subjetivo podem ser agrupadas em três categorias: na primeira, o bem-estar é definido a partir de condições externas; na segunda, como auto-avaliação da vida em termos positivos; e na terceira como freqüente preponderância de sentimentos positivos sobre sentimentos negativos.
Independentemente da abordagem do BES, este relaciona-se com vários domínios da vida do indivíduo (família, amigos, trabalho, finanças, comunidade). Ou seja, o BES está relacionado com a satisfação em áreas importantes da vida das pessoas.
Há uma forte relação entre a satisfação consigo mesmo e o BES (Diener, 1984), assim como a elevada auto-estima é um dos mais fortes precursores do BES ( Diener e Diener, 1995).
Diener e Fujita (1995) mostram estudos que sugerem ser importante para o BES questões como dinheiro e habilidades sociais (variando de acordo com as metas do indivíduo). Para os autores, algumas variáveis também são influenciadas pelos benefícios proporcionados ao sujeito como, por exemplo, o sujeito fisicamente mais atraente pode ter mais amigos, mais relacionamentos amorosos, ajudar no emprego e sentir-se melhor consigo.
A felicidade, que é vista como uma das subdimensões do bem-estar subjetivo, merece aqui um lugar de destaque para a compreensão da importância da SPC para a experiência do BES.
Com base nos estudos de Csikszentmihalyi (1992), a felicidade dependeria muito mais dos aspectos subjetivos do indivíduo do que os acontecimentos propriamente ditos. Para o autor, a felicidade seria uma disposição para experimentar de forma mais positiva os eventos da vida diária. Por outro lado, experimenta-se a felicidade quando as pessoas atingem uma meta ou um objetivo.
Segundo o autor, em nossa sociedade há uma tendência a um estado crônico de insatisfação e as realizações são sempre seguidas do estabelecimento de novas necessidades e desejos. Este seria um dos principais obstáculos para a felicidade. A felicidade estaria muito mais centrada no modo como se filtra e interpreta as experiências que na ocorrência de acontecimentos positivos ou negativos: “O problema surge quando as pessoas se concentram tanto naquilo que desejam alcançar que deixam de obter prazer no presente.” (Csikszentmihalyi, 1992, p.25). Um forte obstáculo para a felicidade seria a criação, por parte dos indivíduos, de metas ou intenções de vida que se encontrem impedidas ou fortemente dificultadas por impossibilidades ou barreiras na realidade ou no mundo ao seu redor. As sucessivas impossibilidades de realização dos planos de vida tenderiam a enfraquecer os indivíduos, fazendo com que não buscassem novas metas e objetivos (Csikszentmihalyi, 1992).
Se o bem-estar está associado a uma tendência a ver e avaliar positivamente a si e aos eventos externos, a insatisfação com o peso corporal poderia ser vista como uma forma negativista e depreciadora de auto-avaliação. Do mesmo modo, quando observa-se que o excesso de peso corporal (real ou imaginado pelo indivíduo) realmente influencia na sociabilidade, na auto-estima e na avaliação de sua capacidade e habilidade pessoal (atributos estes associados à felicidade), a satisfação com o peso corporal será um agente preponderante para o bem-estar subjetivo.
O número de sujeitos insatisfeitos com o peso é bem superior ao número de obesos (e.g., Cash e Hanry, 1995). Isto acontece uma vez que a insatisfação com o peso é avaliada pela diferença entre o peso no qual o sujeito se avalia e aquele que ele considera o ideal. Desta forma, a satisfação com o peso corporal não depende apenas do dado objetivo da forma corporal do indivíduo, mas também envolve auto-avaliação emocional e cognitiva, assim como valorização e idealização de corpos magros.
Diener, Wolsic e Fujita (1995) estudaram a relação entre atratividade física e o bem-estar subjetivo. Os autores mostram a importância dada à atratividade na auto-avaliação e aceitação social. O estudo foi dividido em duas etapas, sendo que na primeira os sujeitos eram gravados em vídeo-tape e avaliados por outras pessoas no que diz respeito à atratividade física. Houve uma correlação entre atratividade física e bem-estar subjetivo. Porém, na segunda fase, quando elementos que aumentam a atratividade (ex. cabelo, roupa e jóias) foram suprimidos, sendo avaliada apenas a atratividade natural dos indivíduos, a correlação com o bem-estar diminuiu. Tais resultados sugerem que as pessoas mais felizes e com maior bem-estar subjetivo esforçam-se mais para aumentar sua atratividade física. O estudo revelou ainda que a auto-percepção de atratividade física está relacionada tanto com a atratividade física objetiva quanto com o bem-estar subjetivo. O peso corporal pode ser visto atualmente como um atributo muito importante para a atratividade física e, embora haja dificuldade para o emagrecimento, esta é uma variável modificável pelo indivíduo, e não um item de atratividade natural. Como os itens de atratividade física natural do indivíduo têm menor importância do que aqueles dependentes da ação da pessoa, o peso corpóreo pode ser visto como dependente da ação do indivíduo e, portanto, mais fortemente relacionado com o BES.

MÍDIA E PESO CORPORAL:

É notório o poder da mídia como reflexo e propagadoras do momento histórico e cultural, sendo ao mesmo tempo um reflexo do social e uma geradora de opiniões e atitudes. A todo momento a mídia diz o que comprar, o que vestir e como agir. Esse modelo de consumo influencia a avaliação e a importância da forma corporal na vida das pessoas. A valorização do “ser belo” e do peso corporal é ressaltada por um movimento crescente refletido na mídia.
Atualmente, a busca por formas corporais muito magras encontra-se em um movimento crescente (Garner e Garfinkel, 1985). Formas corporais acima do peso já foram vistas como sinônimo de saúde, riqueza e abundância (possibilidade econômica de alimentar-se bem). No entanto, hoje são vistas como desleixo e feiúra (Cogan, Bhalla, Sefa-Dedeh e Rothblum, 1996).
Observa-se um grande volume de revistas dedicadas ao assunto, vendidas e consumidas no cotidiano. Na televisão as atrizes são sempre belas e magras, ou sofrem se não o são. A maioria das protagonistas dos programas que mostra mulheres bonitas e bem-sucedidas é bem magra. A mídia mostra a magreza associada ao sucesso e à felicidade, interferindo, assim, na percepção de beleza, principalmente feminina. Nas passarelas desfilam corpos esbeltos e livres de gordura. A mensagem imposta de forma indireta (ou, muitas vezes, direta) é: seja magro e tenha um corpo em forma pois é algo fundamental.
As pessoas que estão fora das formas corporais determinadas pela mídia são marginalizadas, vistas como inferiores, discriminadas e, até mesmo, ridicularizadas. Porém, é possível perceber que este modelo de beleza e felicidade está muito distante da realidade da maioria das pessoas (devido ao grau de magreza e medidas corporais estabelecidas), provocando um forte sentimento de insatisfação e baixa auto-estima. Segundo Garner e Garfinkel (1985), nas duas últimas décadas a preocupação com relação ao peso corporal, principalmente das mulheres, vem aumentando diante deste panorama.
Além desta valorização do corpo magro, segundo Garner e Garfinkel (1985), ao longo dos últimos 25 anos houve um “emagrecimento” progressivo do modelo de beleza. As formas corporais valorizadas atualmente são muito mais magras do que há décadas atrás. Tal emagrecimento do padrão de beleza vem criando uma disparidade entre os padrões ideais e os padrões reais, uma vez que a maioria das mulheres não consegue atingir tal padrão imposto pelas indústrias de moda e propaganda. O modelo de magreza visto nas passarelas, na televisão e nas revistas não condiz com as formas corporais naturais da maioria das pessoas. As modelos costumam ter uma constituição já naturalmente muito magra ou dedicam suas vidas em academias e mesas de tratamentos estéticos para atingir tal forma.
Pode-se observar alguns movimentos sociais que favoreceram ao surgimento deste modelo de corpo “em forma”: primeiramente, a divulgação pela mídia das modelos de passarela- que precisavam ser magras para dar um melhor “caimento” para as roupas e cujas formas corporais justamente não iriam chamar a atenção, dando destaque às roupas, como verdadeiros “cabides humanos”- que passaram a sinônimo de beleza e elegância; paralelemente a isto, na década de 70 surgiu nos EUA a cultura fitness (surgimento de academias de ginástica, suplementos alimentares e venda de aparelhos de ginástica); da mesma forma, avanços na medicina comprovaram a associação entre várias patologias e o excesso de gordura (porém a obesidade que a medicina considera danosa está bem acima do padrão da moda); por outro lado, houve um grande aumento do índice de obesidade, principalmente entre os americanos, provocando um movimento de divulgação de dietas, métodos e produtos para emagrecer. Estes movimentos favoreceram a valorização da magreza, porém com padrões extremamente rígidos.
Muitas mulheres estão pagando preços altíssimos para atingir este modelo de beleza. Uma das conseqüências deste movimento é o aumento do número de mulheres apresentando um quadro de transtornos alimentares (principalmente anorexia e bulimia nervosa) que estão associados à busca excessiva de uma forma corporal muito magra (Garner e Garfinkel, 1985).
A identificação com o modelo da mídia e a dificuldade em atingi-lo têm colaborado para uma crescente insatisfação e insegurança feminina em relação à seus corpos . Até mesmo mulheres magras rotulam-se como obesas e muitas mulheres que estão estatisticamente abaixo do peso não reconhecem este fato (Garner e Garfinkel, 1985).
Pode-se notar o surgimento de uma verdadeira “epidemia diet”. A todo momento os indivíduos são bombardeados com propagandas de dietas milagrosas, remédios, alimentos “diet” e “light”, tratamentos para eliminação da gordura (às vezes até mesmo cirúrgicos), ginásticas etc.. A indústria americana de dieta rende aproximadamente 33 milhões de dólares por ano (Cogan et al, 1996). Há um verdadeiro culto à forma física livre de gordura. Celulite? Nem pensar! Isso provoca em boa parte das pessoas, principalmente mulheres, uma “fobia de gordura”. E como a gordura faz parte naturalmente do corpo das pessoas, isto acaba gerando uma auto-desvalorização de seus próprios corpos.
Busca-se uma perfeição física inatingível. Por mais que as pessoas dediquem horas em academias de ginástica, recorram a cirurgias plásticas, façam dietas extremamente restritivas, não atingirão tal “perfeição”. Porém, a mídia divulga fórmulas milagrosas e lucra com isso.
Garner e Garfinkel (1985) destacam o preconceito social contra a obesidade, evidências de uma diminuição significativa de oportunidades educacionais, empregos, promoção de trabalho e habitação em função do peso corporal. Os autores ainda documentam que a obesidade é vista como associada à estupidez, sujeira, preguiça, feiúra, tristeza e outros rótulos negativos. Um dado curioso desta pesquisa é o fato de que tais atributos negativos associados aos obesos são opiniões compartilhadas não só por pessoas magras, como também por indivíduos obesos.

INSATISFAÇÃO COM O PESO CORPORAL:

Cash e Henry (1995) constataram um aumento no nível de insatisfação corporal ao longo das últimas décadas. Cerca de 50% das mulheres de sua amostra apresentaram uma avaliação global negativa de sua aparência e preocupação em estar ou vir a estar acima do peso. O efeito da idade foi pequeno (maior entre 18 e 24 anos), porém com significante influência da raça e etnia, sendo melhor a auto-imagem nas afro-americanas do que nas hispânicas. Haveria uma significativa diferença entre homens e mulheres, sendo a auto-imagem muito mais desfavorável em mulheres.
Para os autores, a auto-imagem consiste em auto-percepção, cognição, afeto e comportamento no que diz respeito a atributos físicos. O estudo revela ainda que a auto-avaliação negativa da aparência entre mulheres de 18 e 70 anos aumentou de 30% encontrado na última década, para 48% no presente estudo.

II - OBJETIVOS


Este trabalho pretende estudar a satisfação com o peso corporal e sua influência no bem-estar subjetivo do indivíduo. Acredita-se que a satisfação com o peso corporal constitui uma importante variável no mundo moderno para a experiência do bem-estar subjetivo. Porém, tal influência dependerá de uma série de outros fatores, o que pretende-se investigar. Assim, este estudo tem como objetivo de levantar as variáveis associadas à problemática do peso corporal na atualidade que faz com que a mesma torne-se fundamental para o bem-estar subjetivo.

III- MÉTODO

1- PARTICIPANTES:

Por tratar-se de um estudo exploratório, optou-se por selecionar um grupo aleatório de sessenta (60) participantes, incluindo todas as idades, sexo, nível sócio-econômico e ocupação. Portanto, não foi utilizado nenhum critério de exclusão na seleção da amostra.


2- INSTRUMENTO:

De acordo com a teoria das representações sociais (Sá, 1996), há como um dos métodos eficazes de investigação a associação ou evocação livre, onde a partir de um elemento chave (podendo ser uma imagem, frases ou palavras) os participantes são solicitados a narrar ou escrever aquilo que vem a sua lembrança.
Assim, foi construído um questionário com 28 frases incompletas onde os participantes deveriam completá-las com o que viesse em sua lembrança. Todas as frases referem-se aos temas obesidade, peso corporal e bem-estar subjetivo (Anexo).
Constam do questionário dados pessoais para melhor definição da amostra, assim com uma breve instrução.

3- PROCEDIMENTO:

Os participantes foram abordados individualmente e solicitados a preencher o questionário. Nada foi dito a respeito do tema, apenas tratar-se de um estudo dentro do campo da psicologia. A todos foram dadas instruções adequadas, tais como as descritas no questionário, buscando-se enfatizá-las.

IV- RESULTADOS E CONCLUSÕES:

Cada frase incompleta foi analisada individualmente, buscando-se agrupar as respostas em grupos de conteúdos similares e com sua respectiva freqüência. Como houve mais de uma resposta para cada questão, a contagem das freqüências pode superar o número de participantes. Não houve a preocupação com a ordem das respostas, ou seja, qual foi colocada em primeiro lugar.

Constarão, ainda, da tabela as letras (P) para respostas positivas, (N) para respostas negativas e (NE) para respostas neutras ou indefinidas. Algumas questões não terão estas categorias pois suas respostas não podem ser divididas desta forma.
Obteve-se como principais resultados:
• Com freqüência as pessoas obesas (mais mulheres que homens) são consideradas mais infelizes e com mais dificuldades sociais. Tais resultados confirmam estudos anteriores sobre o preconceito em relação aos obesos e sua diferenciação sexual (e.g. Garner e Garfinkel, 1985 e Cogan et al, 1996).
• Para os entrevistados, o peso corporal influi decisivamente no modo positivo ou negativo de viver a vida. É por este motivo que o conceito de bem-estar subjetivo tem uma relação direta com a satisfação com o peso corporal.
• Não apenas o peso ou a forma corporal costuma gerar satisfação ou insatisfação, mas também a utilização de determinadas roupas ou a exposição a situações sociais específicas em função da forma corporal. Esse resultado mostra tanto a influência da indústria da moda com tamanhos e modelos que valorizam o corpo magro quanto a antecipação de um panorama (real ou imaginário) de preconceito social.
• Ao ver pessoas “em forma”, grande parte dos participantes logo sente desejo de ter corpo semelhante. Ou seja, corpo “em forma” é objeto de desejo. As pessoas “em forma” são admiradas.
• Ao sentir insatisfação com o peso corporal, a maioria dos participantes pensa logo em fazer dieta, muitas delas radicais. A incidência do comportamento de dieta realmente mostra-se elevada atualmente (e.g., Neumark-Sztainer et al, 1995 e Cogan et al, 1996).
• Os participantes acreditam que a obesidade é resultado de descontrole alimentar e emocional. Nenhum estudo encontrado relaciona a obesidade a tais fatores, o que indica a existência de um preconceito (Garner e Garfinkel, 1985).
• Os participantes acreditam que estar “acima do peso” afeta a vida das pessoas em vários aspectos, incluindo vida amorosa, sexual, social e emocional.
• Do grupo de participantes do sexo feminino, 75,54% gostariam de perder peso, enquanto o percentual masculino é de 39,99%. O resultado de estudos citados anteriormente indicam estatísticas similares, tanto no que diz respeito ao índice de desejo de perda de peso quanto à diferença entre homens e mulheres (e.g. Cash e Hanry, 1995; Neumark-Sztainer et al, 1995 e Thompson, 1990)

VI- CONSIDERAÇÕES FINAIS

“A vida é essencialmente um processo de adaptação às circunstâncias em que subsistimos. O segredo da saúde está no ajustamento às condições do mundo, que está permanentemente se modificando. O preço da dificuldade de adaptação está na doença.” (Jacob, 1995, p.270).

No presente estudo, percebe-se o processo de “ajustamento” aos padrões da contemporaneidade de valorização da estética e do corpo esbelto como marco de vitória. Porém, não somente o sentimento de desajustamento leva as pessoas à “doença” ou a uma redução do bem-estar subjetivo, como também à própria busca por tal ajustamento.
Antes de mais nada, é importante ficar bastante claro que não há aqui qualquer implicação de que pessoas obesas estejam necessariamente insatisfeitas com o peso corporal, ou ainda menos felizes. A variável estudada foi a insatisfação com o peso corporal, independentemente do indivíduo ser obeso ou não. A vivência da insatisfação com o peso corporal, assim como os preconceitos existentes com relação à obesidade – e não a obesidade propriamente dita - é que levariam a uma redução do bem-estar subjetivo. Os dados da pesquisa sugerem que pessoas insatisfeitas com o peso corporal sentem-se inferiores socialmente, mas em nenhum momento provou que os obesos seriam de fato tratados de forma diferenciada. Isto indica que a insatisfação com o peso corporal – e não a obesidade propriamente dita – afetaria os indivíduos principalmente no aspecto emocional.
Os resultados da pesquisa permitem verificar a freqüência e a intensidade com que a insatisfação com o peso corporal leva a uma redução do bem-estar subjetivo. A escolha da metodologia aplicada, por motivos didáticos, não permitiu que algumas variáveis (como por exemplo sexo, idade e peso corporal dos entrevistados) fossem abordadas, assunto para estudos posteriores.
Este estudo não esgota a complexa problemática do peso corporal que instalou-se como epidemia no seio da sociedade contemporânea. Os dados foram colhidos para o conhecimento da vivência da insatisfação com o peso corporal. Novos dados da questão devem ser investigados e aprofundados.
Como contribuição para trabalhos posteriores, além da inclusão das variáveis acima mencionadas, entrevistas com outro enfoque devem ser feitas, para investigar vivências e relatos relevantes para o tema.
Não se pode esperar somente que um movimento de mudança no sistema de valores da sociedade permita que pessoas insatisfeitas com o peso corporal possam sentir-se plenamente felizes. Estas pessoas devem aprender uma forma de atuar no mundo que possibilite, a despeito do seu peso e forma corporal, conquistar um espaço de valor na sociedade. É possível aprender novas formas de lidar com o meio ambiente. Assim, o conhecimento desta problemática deve ser utilizado para a elaboração de propostas terapêuticas. A investigação de estratégias para ajudar os indivíduos insatisfeitos com o peso corporal é um importante convite aos profissionais de saúde.







REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


Cash, T. F. e Henry, P. E.. Women’s Body Images: The Results of a National Survey in the U.S.A. Sex Roles, 1995 (Jul), 33(1-2), 19-28.
Cogan, J. C., Bhalla, S. K., Sefa-Dedeh, A. E Rothblum, E. D.: A comparison study of united states and african students on perceptions of obesity and thinness. Journal of Cross-Cultural Psychology, 1996, 27(1), 98-113.
Csikszentmihalyi, M. A Psicologia da Felicidade. São Paulo, S.P.: Saraiva, 1992.
Diener, E. . Subjetive Well-Being. Psychological Bulletin. 1984, 95. 542-575.
Diener, E. e Diener, M. Cross-Cultural Correlates of Life Satisfaction and Self-Esteem. Journal of Personality and Social Psychology,1995, 68(4), 653-663.
Diener, E.; Wolsic, B.; Fujita, F. Physical Attractiveness and Subjetive Well-Being. Journal of Personality and Social Psychology, 1995(Jul), 69(1), 120-129.
Diener, E. e Fujita, F. Resources, Personal Strivings, and Subjetive Well-Being: A Nomothetic and Idiographic Approach. Journal of Personality and Social Psychology, 1995, 68(5), 926-935.
Garner, D. M. e Garfinkel, P. E. Handbook of Psychotherapy for Anorexia Nervosa and Bulimia. N. York e London: The Guilford Press, 1985.

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