EPILEPSIA:
Fonte: Liga Brasileira de Epilepsia
http://www.epilepsia.org.br/epi2002/temas_indice.asp
DEFINIÇÃO:
É uma alteração temporária e reversível do funcionamento do cérebro, que não tenha sido causada por febre, drogas ou distúrbios metabólicos. Durante alguns segundos ou minutos, uma parte do cérebro emite sinais incorretos, que podem ficar restritos a esse local ou espalhar-se. Se ficarem restritos, a crise será chamada parcial; se envolverem os dois hemisférios cerebrais, generalizada. Por isso, algumas pessoas podem ter sintomas mais ou menos evidentes de epilepsia, não significando que o problema tenha menos importância se a crise for menos aparente.
sintomas:
Em crises de ausência, a pessoa apenas apresenta-se "desligada" por alguns instantes, podendo retomar o que estava fazendo em seguida. Em crises parciais simples, o paciente experimenta sensações estranhas, como distorções de percepção ou movimentos descontrolados de uma parte do corpo. Ele pode sentir um medo repentino, um desconforto no estômago, ver ou ouvir de maneira diferente. Se, além disso, perder a consciência, a crise será chamada de parcial complexa. Depois do episódio, enquanto se recupera, a pessoa pode sentir-se confusa e ter déficits de memória. Tranqüilize-a e leve-a para casa se achar necessário. Em crises tônico-clônicas, o paciente primeiro perde a consciência e cai, ficando com o corpo rígido; depois, as extremidades do corpo tremem e contraem-se. Existem, ainda, vários outros tipos de crises. Quando elas duram mais de 30 minutos sem que a pessoa recupere a consciência, são perigosas, podendo prejudicar as funções cerebrais.
CAUSAS:
Muitas vezes, a causa é desconhecida, mas pode ter origem em ferimentos sofridos na cabeça, recentemente ou não. Traumas na hora do parto, abusos de álcool e drogas, tumores e outras doenças neurológicas também facilitam o aparecimento da epilepsia.
DIAGNÓSTICO:
Exames como eletroencefalograma (EEG) e neuroimagem são ferramentas que auxiliam no diagnóstico. O histórico clínico do paciente, porém, é muito importante, já que exames normais não excluem a possibilidade de a pessoa ser epiléptica. Se o paciente não se lembra das crises, a pessoa que as presencia torna-se uma testemunha útil na investigação do tipo de epilepsia em questão e, conseqüentemente, na busca do tratamento adequado.
CURA:
Em geral, se a pessoa passa anos sem ter crises e sem medicação, pode ser considerada curada. O principal, entretanto, é procurar auxílio o quanto antes, a fim de receber o tratamento adequado. Foi-se o tempo que epilepsia era sinônimo de Gardenal, apesar de tal medicação ainda ser utilizada em certos pacientes. As drogas antiepilépticas são eficazes na maioria dos casos, e os efeitos colaterais têm sido diminuídos. Muitas pessoas que têm epilepsia levam vida normal, inclusive destacando-se na sua carreira profissional.
OUTROS TRATAMENTOS:
Existe uma dieta especial, hipercalórica, rica em lipídios, que é utilizada geralmente em crianças e deve ser muito bem orientada por um profissional competente. Em determinados casos, a cirurgia é uma alternativa.
RECOMENDAÇÕES:
Não ingerir bebidas alcoólicas, não passar noites em claro, ter uma dieta balanceada, evitar uma vida estressada demais.
CRISES:
Se a crise durar menos de 5 minutos e você souber que a pessoa é epiléptica, não é necessário chamar um médico. Acomode-a, afrouxe suas roupas (gravatas, botões apertados), coloque um travesseiro sob sua cabeça e espere o episódio passar. Mulheres grávidas e diabéticos merecem maiores cuidados. Depois da crise, lembre-se que a pessoa pode ficar confusa: acalme-a ou leve-a para casa.
PARA MAIORES INFORMAÇÕES: http://www.epilepsia.org.br/epi2002/index.asp
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
ESQUIZOFRENIA
ESQUIZOFRENIA
Ballone GJ
O que é Esquizofrenia?
O termo "esquizofrenia" foi criado em 1911 pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler com o significado de mente dividida. Ao propor esse termo, Bleuler quis ressaltar a dissociação que às vezes o paciente percebia entre si mesmo e a pessoa que ocupa seu corpo. Hoje é o nome universalmente aceito para este transtorno mental psicótico, entretanto, no meio técnico e profissional se admite que o termo pode ser insuficiente para descrever a complexidade dessa condição patológica.
A Esquizofrenia é uma doença da personalidade total que afeta a zona central do eu e altera toda estrutura vivencial. Culturalmente o esquizofrênico representa o estereotipo do "louco", um indivíduo que produz grande estranheza social devido ao seu desprezo para com a realidade reconhecida. Agindo como alguém que rompeu as amarras da concordância cultural, o esquizofrênico menospreza a razão e perde a liberdade de escapar às suas fantasias.
Segundo Kaplan, aproximadamente 1% da população é acometida pela doença, geralmente iniciada antes dos 25 anos e sem predileção por qualquer camada sócio-cultural. O diagnóstico se baseia exclusivamente na história psiquiátrica e no exame do estado mental. É extremamente raro o aparecimento de esquizofrenia antes dos 10 ou depois dos 50 anos de idade e parece não haver nenhuma diferença na prevalência entre homens e mulheres.
Os transtornos esquizofrênicos se caracterizam, em geral, por distorções características do pensamento, da percepção e por inadequação dos afetos. Usualmente o paciente com esquizofrenia mantém clara sua consciência e sua capacidade inteleitual.
A esquizofrenia traz ao paciente um prejuízo tão severo que é capaz de interferir amplamente na capacidade de atender às exigências da vida e da realidade.
O que não é Esquizofrenia?
Há alguns mitos sobre a esquizofrenia bastante enraizados na opinião popular. Boa parte desses mitos se originou na mídia, através de filmes e romances sobre “loucos” e psicóticos que, além da qualidade literária e artística, não guardam, obrigatoriamente, uma coerente relação com a verdade científica.
A esquizofrenia não é a dupla pessoalidade. Apesar do termo esquizofrenia cunhado por Bleuler em 1911 significar mente partida, hoje sabemos que a síndrome de esquizofrenia é muito mais ampla que isso e não tem por que incluir nela os Transtornos de Personalidade Múltipla.
A esquizofrenia não é uma violência sem sentido. O mito da violência psicótica provavelmente se deve ao grande diretor Alfred Hitchcock e afins, cujo trabalho consiste em dirigir e vender filmes de agrado popular mas não, necessariamente, com bases científicas e reais.
Também é possível que este mito se deva ao tratamento da esquizofrenia com medicamentos sedativos. Mas, na maioria das vezes, a sonolência é um efeito secundário da medicação antipsicótica mais do que uma imperiosa necessidade de “dopar” o paciente.
A porcentagem de pacientes psicóticos esquizofrênicos que pode ser violenta é, felizmente, pequena. A agressividade dos psicóticos costuma ocorrer em proporção igual a que acontece com a população em geral. Aliás, podemos dizer, de maneira geral, que quem mais agride é a sociedade ao “louco” do que o contrário; é a sociedade das pessoas normais quem prende, agride, amarra, interna sem consentimento, seda, dopa, exclui e estigmatiza.
A esquizofrenia não acomete pessoas pouco inteligentes.
A esquizofrenia afeta tanto as pessoas com alto quanto baixo nível intelectual, atinge igualmente os ricos e pobres, os mais cultos e os mais simplórios. Não é monopólio de quem tem a mente fraca e nem depende da pessoa ser “esclarecida e inteligente”.
Tipos de Esquizofrenia?
A esquizofrenia paranóide
Este tipo de esquizofrenia é o mais comum e também o que responde melhor ao tratamento. Diz-se, por causa disso, que tem prognóstico melhor. O paciente que sofre esta condição pode pensar que o mundo inteiro o persegue, que as pessoas falam mal dele, têm inveja, ridicularizam-no, pensam mal dele, elas têm intenções de fazer-lhe mal, de prejudicá-lo, de matá-lo, etc. Trata-se dos delírios de perseguição.
Não é raro que este tipo de paciente tenha também delírios de grandeza, idéias além de suas possibilidades: "Eu sou o melhor cantor do mundo. Nada me supera. Nem Frank Sinatra é melhor". Esses pensamentos podem vir acompanhados de alucinações, aparição de pessoas mortas, diabos, deuses, alienígenas e outros elementos sobrenaturais. Algumas vezes esses pacientes chegam a ter idéias religiosas e/o políticas, proclamando-se salvadores da terra ou da raça humana.
A esquizofrenia hebefrênica ou desorganizada
Neste grupo se incluem os pacientes que têm problemas de concentração, pouca coerência de pensamento, pobreza do raciocínio, discurso infantil. Às vezes, fazem comentários fora do contexto e se desviam totalmente do tema da conversação. Expressam uma falta de emoção ou emoções pouco apropriadas, rindo-se a gargalhadas em ocasiões solenes, rompendo a chorar por nenhuma razão em particular, etc.
Neste grupo também é freqüente a aparição de delírios (crenças falsas), por exemplo que o vento move na direção que eles querem, que se comunicam com outras pessoas por telepatia, etc.
A esquizofrenia catatônica
É o tipo menos freqüente de esquizofrenia. Apresenta como característica transtornos psicomotores, tornando difícil ou impossível ao paciente mover-se. Talvez passe horas sentado na mesma posição. A falta da fala também é freqüente neste grupo, assim como alguma atividade física sem propósito.
A esquizofrenia residual
Este termo é usado para se referir a uma esquizofrenia que já tem muitos anos e com muitas seqüelas. O prejuízo que existe na personalidade desses pacientes já não depende mais dos surtos agudos. Na esquizofrenia assim cronificada podem predominar sintomas como o isolamento social, o comportamento excêntrico, emoções pouco apropriadas e pensamentos ilógicos.
A esquizofrenia simples
Também é pouco freqüente. Aparece lentamente, normalmente começa na adolescência com emoções irregulares ou pouco apropriadas, pode ser seguida de um paulatino isolamento social, perda de amigos, poucas relações reais com a família e mudança de caráter, passando de sociável a anti-social e terminando em depressão. Nesta forma da esquizofrenia não se observam muitos surtos agudos.
Apesar desta classificação, é bom destacar que os pacientes esquizofrênicos nem sempre se encaixam perfeitamente numa de estas categorias. Também existem pacientes que não se podem classificar em nenhum de os grupos mencionados. A estes pacientes se pode dar o diagnóstico de esquizofrenia indiferenciada.
A Esquizofrenia tem cura?
Até bem pouco tempo se pensava que a esquizofrenia era sempre incurável e que se convertia, obrigatoriamente, numa doença crônica e por vida. Hoje em dia, entretanto, sabemos que este não é necessariamente o caso e uma porcentagem de pessoas que sofrem deste transtorno pode recuperar-se por completo e lavar uma vida normal como qualquer outra pessoa.
Outras pessoas, com quadros mais graves, apesar de dependerem de medicação, chegam a melhorar até o ponto de poderem desempenhar o trabalho, casar-se e ter família. Embora não se possa falar em cura, tal como se conceitua a cura total na medicina, a reabilitação psicossocial da expressiva maioria desses pacientes tem sido bastante evidente.
Apesar da esquizofrenia tender à deixar mais seqüelas a cada novo surto, o importante é saber que estas pessoas podem chegar a ter funções na sociedade e podem chegar a ser muito produtivas, mais ou menos sócio-cupacionalmente normais e dentro de suas possibilidades.
A família pode causar a esquizofrenia?
Não, não e não! Esta é a resposta mais simples. Apesar das infinitas investigações, a origem da esquizofrenia ainda não está clara. O que está claro, entretanto, é que não é causada por um trauma infantil, nem por um mau comportamento por parte dos pais.
Nos anos 60 e 70 muitas investigações se realizaram no campo da terapia familiar, sobre o comportamento de as famílias e transtornos mentais. Encontraram vários patrões de conduta comuns a famílias com problemas de saúde mental, o qual conduz a alguns profissionais a concluir, erroneamente, que a família poderia ser culpada pelos transtornos mentais de seus filhos. Nada mais falso.
Os sintomas da esquizofrenia resultam de desequilíbrios de substâncias neuroquímicas no cérebro, tias como a dopamina, serotonina, e noradrenalina. As últimas investigações indicam que estes desequilíbrios podem estar presentes no cérebro, inclusive antes do nascimento da pessoa.
Entretanto, o comportamento da família influi fortemente na reabilitação do individuo com esquizofrenia. Os estudos demonstram que a intervenção da família é de grande importância na prevenção das recaídas.
A esquizofrenia é herdada?
Em primeiro lugar convém fazer uma distinção entre o que é genético e o que é hereditário:
1) Se uma doença é genética, isso quer dizer que antes de nascer uma pessoa pode ter um gene ou uma programação que a conduza em direção à doença, mas em forma de probabilidade e não de certeza.
Cada um de nós carrega genes de diferentes doenças mas não as desenvolvemos obrigatoriamente. Um exemplo claro disso é o câncer de pulmão, identificado em genes de pessoas sadias não fumantes. Uma pessoa que tenha este gene teria uma predisposição genética a desenvolver a doença, mas isso não quer dizer que esta pessoa vá desenvolvê-la obrigatoriamente. De fato, se não fumar, levar uma vida não estressante, enfim, se não cumprir os requisitos necessários ao desenvolvimento da doença não terá câncer de pulmão.
2) Uma doença hereditária é uma doença genética que se transmitirá, com certeza, de uma geração a outra e, além disso, terá uma porcentagem fixa e calculada de novos casos da doença na geração seguinte.
Um exemplo de uma doença hereditária é a Coréia de Huntington. Esta doença crônica supõe um degeneração corporal e mental que se passa de uma geração a outra, desenvolvendo-se em 50% dos filhos. Quer dizer que um paciente de Huntingtom que decide ter um filho sabe, de antemão, que a cada dois filhos que nascerem, no mínimo um desenvolverá a enfermidade.
Até o momento têm sido inconclusivos os estudos que afirmam, indubitavelmente, se a esquizofrenia é genética ou hereditária, embora já se tenha certeza absoluta de que a probabilidade de filhos esquizofrênicos é maior se um dos pais for esquizofrênico e, muito maior, se ambos forem.
Na população geral a esquizofrenia aparece numa de cada cem pessoas (fator de risco de 1%).
- Se tiver um avô com a esquizofrenia o fator risco sobe para 3%
- Se um dos pais ou um irmão sofre de esquizofrenia o risco é de 10-20%
- Se ambos pais sofrem de esquizofrenia o risco é de 40-50%
Quais são os efeitos secundários da medicação?
Todos os medicamentos produzem efeitos secundários e a medicação prescrita em casos de esquizofrenia não é uma exceção. A medicação que se prescreve aos pacientes com esquizofrenia se chama antipsicótico (antes chamados neuroléptico). Os efeitos secundários nem sempre são evidentes e são de menor gravidade que os próprios sintomas da esquizofrenia. Muitos pacientes cometem o erro de deixar de tomar a medicação quando aparecem estes efeitos ou quando algum conhecido “alerta” para os perigos de tais medicamentos.
Na realidade o que tem que ser feito é informar-se com o psiquiatra sobre as dúvidas e sobre o que está sentindo. É muito importante saber diferenciar entre os efeitos secundários da medicação e os próprios sintomas da esquizofrenia.
Veja alguns efeitos colaterais mais comuns:
Sonolência
A sonolência é um aumento no sono do paciente. Talvez seja difícil levantar-se da cama de manhã, dorme mais que o normal, tem vontade de dormir durante o dia, etc. Por outro lado não são raros os comentários como "Estou dopado", "Sinto-me como um zumbi", ou outros, também de teor culturalmente pejorativo.
Efeitos extrapiramidais ou parkinsonismo
Esses sintomas são assim chamados pela semelhança com os sintomas da Doença de Parkinson. O paciente que manifesta estes efeitos não sofre de Doença de Parkinsom, simplesmente a dose da medicação deve de ser melhor ajustada. Esses efeitos se podem corrigir com medicamentos anti-parkinsonianos, tipo akineton®, artane®.
Os efeitos parkinsonianos se manifestam na forma de movimentos ou posturas involuntárias: o tremor das mãos, flexões ou fixações dos músculos. Assim sendo, não é raro que o paciente usando antipsicóticos tenha a boca ou os músculos da face numa postura entranha, talvez a boca permaneça aberta ou semi-aberta. Também é possível que a língua se força para um lado, dificultando a fala ou fazendo com que a saliva escorra da boca.
Efeitos anticolinérgicos
Esses efeitos secundários se referem a visão borrada, secura da boca, retenção urinária, hipotensão arterial.
Dificuldades sexuais
Poucas vezes se encontram citadas como efeitos secundários dessa medicação. Também pode ser provável que os sintomas sexuais se devam a sintomas da depressão que a vezes acompanha a esquizofrenia.
Acatisia Consiste numa inquietação constante. O paciente é incapaz de sentar-se no mesmo lugar durante muito tempo. Ele se levanta e muda de assento várias vezes em poucos minutos ou se ajusta muitas vezes no sofá. Este é um efeito secundário bastante desconfortável porque os que estão próximos podem pensar erroneamente que o paciente está nervoso.
A acatisia é um efeito secundário que pode chegar a ser muito molesto para o paciente e tem solução fácil; com pequenas modificações do tratamento.
Alguns benefícios do tratamento medicamentoso:
Elimina vozes, visões e o falar consigo mesmo
Elimina as crenças entranhas e falsas (delírios).
Diminui a tensão e agitação.
Ajuda a pensar com clareza e a concentrar-se melhor.
Reduz os medos, a confusão e a insônia.
Ajuda a falar de forma coerente.
Ajuda a sentir-se mais feliz, mais expansivo e mais sadio.
Ajuda a se comportar de forma mais apropriada.
Os pensamentos hostis, estanhos ou agressivos desaparecem.
Diminuem muito as recidivas e a necessidade de internação hospitalar
Veja mais 11 dúvidas de Esquizofrenia
1. O esquizofrênico é violento?
Em geral o esquizofrênico não é violento ou perigoso. Fora da crise é uma pessoa como qualquer outra. Alguns, quando em crise, se tornam agressivos, verbal ou fisicamente, pois os delírios ou as alucinações podem fazê-los sentir-se ameaçados.
Nesses momentos, é importante conversar com a pessoa sem provocá-la, mantendo um diálogo franco e tranqüilo. Na hipótese de ser necessário conter um ato agressivo, é preciso contar com mais pessoas para evitar que o paciente ou terceiros se machuquem. Episódios de agressividade, a depender da intensidade, são situações que indicam a necessidade de eventual internação para garantir a integridade do paciente ou terceiros.
2. Todos os esquizofrênicos são violentos quando em crise?
Não. Mesmo durante crises intensas, a maioria dos portadores de esquizofrenia não manifesta agressividade importante. O comportamento agressivo depende, como indicado na resposta anterior, da natureza dos delírios e das alucinações que a pessoa apresenta.
3. O que fazer quando, ao obter melhora com a medicação, o portador de esquizofrenia abandona seu uso, diminui as dosagens necessárias e não quer mais saber de remédios? Como a família pode agir nesses casos, para evitar novo surto?
Deve-se tentar dialogar, expor as evidências de que a medicação evita a recaída. Infelizmente, muitas vezes são necessárias várias recaídas até que o doente se conscientize da gravidade da doença, de seu curso com recaídas e da necessidade do tratamento contínuo.
Nas recaídas pode ser necessário internar a pessoa até que ela volte à normalidade. Pela legislação em vigor, a família e o médico têm o direito de internar o portador quando em crise mesmo contra sua vontade. Por crise, entende-se que o portador está delirando, fora da realidade, inadequado, sem controle de si mesmo e de seus atos. Nesse momento, a internação é uma medida de proteção e tratamento. Cabe à família e ao médico, diante de uma situação de crise, avaliar a real necessidade de internação. Há recaídas que não exigem necessariamente internação, principalmente quando tratadas precocemente.
4. Em que situações a internação é necessária? Quanto tempo deve durar? Existem internações "para sempre"?
A internação é indicada nos momentos de crise ou de surto agudo, quando então o esquizofrênico não tem controle sobre si mesmo. Deve ser a mais curta possível e, com os atuais antipsicóticos, são suficientes um mês ou mês e meio dias para controlar as manifestações mais graves da doença.
Não se recomendam internações prolongadas ou "para sempre". Para os crônicos, são indicadas pensões e/ou oficinas protegidas que os capacitem a voltar viver independentemente.
5. A família deve manter total observação ou supervisão em relação ao paciente como, por exemplo, arrumando seu quarto, examinando seus objetos, acompanhando-o quando sai à rua?
A ajuda deve ser no sentido de promover a maior independência possível do paciente. Ele deve ser incentivado a cuidar de suas coisas e de sua higiene. Tão logo quanto possível ele deve voltar a caminhar pela cidade independentemente. Essas atitudes visam preservar a auto-estima do paciente, evitando constrangimentos.
6. Considerando-se a rotina familiar, o que pode ser solicitado ao portador de esquizofrenia em termos de colaboração, participação, coisas tais como, cuidar de seu quarto, lavar o quintal, lavar a louça, fazer compras, ir ao banco?
No início, ele deve ser acompanhado, até recuperar as habilidades perdidas. Aos poucos, deve ir assumindo responsabilidades como qualquer membro da família, de acordo com suas possibilidades.
7. Como orientar o portador de esquizofrenia em termos de administrar o dinheiro, valor das coisas, preços, trocos, economia?
A orientação pedagógica é imprescindível. O portador deve ser orientado para que possa compreender o valorizar o preço das coisas e administrar seu dinheiro.
8. O que deve a família fazer para garantir a tranqüilidade futura do portador de esquizofrenia no que se refere a sua segurança social: pensão, aposentadoria, habitação, assistência médica, medicamentos?
As alternativas de atuação familiar, nesses casos, são variadas e dependem da situação específica de cada família, não apenas no que se refere à variável sócio-econômica, mas também no acolhimento oferecido ao paciente pelos demais membros da família, quando há os casos em que apenas alguns membros da família assumem os cuidados necessários.
Em casos crônicos, nos quais o portador não tenha mais condições de trabalhar, é importante que a família propicie condições para a segurança social futura do paciente, providenciando sua aposentadoria e/ou auxílio benefício. Condições de moradia, assistência médica e de defesa de seus direitos devem ser igualmente propiciadas, pois, como qualquer outra pessoa, os portadores de esquizofrenia têm direito à cidadania plena.
9. Um esquizofrênico pode dirigir veículos?
Dirigir veículos é uma questão de bom senso. Se ele estiver controlado, fora de crise e tomando regularmente a dose de manutenção, tem condições de dirigir veículos, desde que tenha consciência de que a medicação pode eventualmente reduzir a rapidez de seus reflexos. Convém ser acompanhado inicialmente por familiares que avaliam suas habilidades.
10. Quais são os sinais de recaída? O que a família pode fazer quando os perceber?
Os principais sinais e sintomas de recaída são as alterações de comportamento. Irritabilidade, insônia, comportamento agitado ou de isolamento social podem ser os sintomas de recaída, assim como alucinações e delírios.
Tão logo o familiar perceba ou suspeite de recaída, deve levar o paciente para uma avaliação médica, de modo que o psiquiatra possa intervir rapidamente, modificando a medicação ou a dose que o paciente recebe. Todo esforço deve ser feito para evitar uma nova recaída.
11. A dificuldade de contato social dos portadores de esquizofrenia dificulta que estabeleçam relações afetivas, tais como, namorar, encontrar companheiros(as), relacionar-se sexualmente? É possível ao familiar ajudá-los na busca desses objetivos?
Apesar da dificuldade em manter contato social, alguns portadores da doença conseguem encontrar um(a) companheiro(a), estabelecer relacionamentos afetivos significativos e manter relacionamentos sexuais. Os familiares devem orientá-los na busca de um relacionamento que não venha a ser estressante e que possa desencadear recaídas.
Tratando-se tais dificuldades, normalmente derivadas do isolamento social, a família pode ajudar incentivando a participação dos portadores nas mais diversas formas de atividades voltadas à ressocialização, tais como a freqüência a centros de convivência, lazer e cultura, grupos de auto-ajuda etc. Quanto ao relacionamento sexual, devem estar orientados sobre os cuidados para evitar doenças sexualmente transmissíveis (por exemplo, AIDS), principalmente o uso de camisinha. As mulheres devem ser acompanhadas também por ginecologista, que pode orientar quanto a métodos contraceptivos seguros, como remédios anticoncepcionais ou DIU.
para referir:
Ballone GJ - Perguntas mais freqüentes sobre Esquizofrenia - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2005
Ballone GJ
O que é Esquizofrenia?
O termo "esquizofrenia" foi criado em 1911 pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler com o significado de mente dividida. Ao propor esse termo, Bleuler quis ressaltar a dissociação que às vezes o paciente percebia entre si mesmo e a pessoa que ocupa seu corpo. Hoje é o nome universalmente aceito para este transtorno mental psicótico, entretanto, no meio técnico e profissional se admite que o termo pode ser insuficiente para descrever a complexidade dessa condição patológica.
A Esquizofrenia é uma doença da personalidade total que afeta a zona central do eu e altera toda estrutura vivencial. Culturalmente o esquizofrênico representa o estereotipo do "louco", um indivíduo que produz grande estranheza social devido ao seu desprezo para com a realidade reconhecida. Agindo como alguém que rompeu as amarras da concordância cultural, o esquizofrênico menospreza a razão e perde a liberdade de escapar às suas fantasias.
Segundo Kaplan, aproximadamente 1% da população é acometida pela doença, geralmente iniciada antes dos 25 anos e sem predileção por qualquer camada sócio-cultural. O diagnóstico se baseia exclusivamente na história psiquiátrica e no exame do estado mental. É extremamente raro o aparecimento de esquizofrenia antes dos 10 ou depois dos 50 anos de idade e parece não haver nenhuma diferença na prevalência entre homens e mulheres.
Os transtornos esquizofrênicos se caracterizam, em geral, por distorções características do pensamento, da percepção e por inadequação dos afetos. Usualmente o paciente com esquizofrenia mantém clara sua consciência e sua capacidade inteleitual.
A esquizofrenia traz ao paciente um prejuízo tão severo que é capaz de interferir amplamente na capacidade de atender às exigências da vida e da realidade.
O que não é Esquizofrenia?
Há alguns mitos sobre a esquizofrenia bastante enraizados na opinião popular. Boa parte desses mitos se originou na mídia, através de filmes e romances sobre “loucos” e psicóticos que, além da qualidade literária e artística, não guardam, obrigatoriamente, uma coerente relação com a verdade científica.
A esquizofrenia não é a dupla pessoalidade. Apesar do termo esquizofrenia cunhado por Bleuler em 1911 significar mente partida, hoje sabemos que a síndrome de esquizofrenia é muito mais ampla que isso e não tem por que incluir nela os Transtornos de Personalidade Múltipla.
A esquizofrenia não é uma violência sem sentido. O mito da violência psicótica provavelmente se deve ao grande diretor Alfred Hitchcock e afins, cujo trabalho consiste em dirigir e vender filmes de agrado popular mas não, necessariamente, com bases científicas e reais.
Também é possível que este mito se deva ao tratamento da esquizofrenia com medicamentos sedativos. Mas, na maioria das vezes, a sonolência é um efeito secundário da medicação antipsicótica mais do que uma imperiosa necessidade de “dopar” o paciente.
A porcentagem de pacientes psicóticos esquizofrênicos que pode ser violenta é, felizmente, pequena. A agressividade dos psicóticos costuma ocorrer em proporção igual a que acontece com a população em geral. Aliás, podemos dizer, de maneira geral, que quem mais agride é a sociedade ao “louco” do que o contrário; é a sociedade das pessoas normais quem prende, agride, amarra, interna sem consentimento, seda, dopa, exclui e estigmatiza.
A esquizofrenia não acomete pessoas pouco inteligentes.
A esquizofrenia afeta tanto as pessoas com alto quanto baixo nível intelectual, atinge igualmente os ricos e pobres, os mais cultos e os mais simplórios. Não é monopólio de quem tem a mente fraca e nem depende da pessoa ser “esclarecida e inteligente”.
Tipos de Esquizofrenia?
A esquizofrenia paranóide
Este tipo de esquizofrenia é o mais comum e também o que responde melhor ao tratamento. Diz-se, por causa disso, que tem prognóstico melhor. O paciente que sofre esta condição pode pensar que o mundo inteiro o persegue, que as pessoas falam mal dele, têm inveja, ridicularizam-no, pensam mal dele, elas têm intenções de fazer-lhe mal, de prejudicá-lo, de matá-lo, etc. Trata-se dos delírios de perseguição.
Não é raro que este tipo de paciente tenha também delírios de grandeza, idéias além de suas possibilidades: "Eu sou o melhor cantor do mundo. Nada me supera. Nem Frank Sinatra é melhor". Esses pensamentos podem vir acompanhados de alucinações, aparição de pessoas mortas, diabos, deuses, alienígenas e outros elementos sobrenaturais. Algumas vezes esses pacientes chegam a ter idéias religiosas e/o políticas, proclamando-se salvadores da terra ou da raça humana.
A esquizofrenia hebefrênica ou desorganizada
Neste grupo se incluem os pacientes que têm problemas de concentração, pouca coerência de pensamento, pobreza do raciocínio, discurso infantil. Às vezes, fazem comentários fora do contexto e se desviam totalmente do tema da conversação. Expressam uma falta de emoção ou emoções pouco apropriadas, rindo-se a gargalhadas em ocasiões solenes, rompendo a chorar por nenhuma razão em particular, etc.
Neste grupo também é freqüente a aparição de delírios (crenças falsas), por exemplo que o vento move na direção que eles querem, que se comunicam com outras pessoas por telepatia, etc.
A esquizofrenia catatônica
É o tipo menos freqüente de esquizofrenia. Apresenta como característica transtornos psicomotores, tornando difícil ou impossível ao paciente mover-se. Talvez passe horas sentado na mesma posição. A falta da fala também é freqüente neste grupo, assim como alguma atividade física sem propósito.
A esquizofrenia residual
Este termo é usado para se referir a uma esquizofrenia que já tem muitos anos e com muitas seqüelas. O prejuízo que existe na personalidade desses pacientes já não depende mais dos surtos agudos. Na esquizofrenia assim cronificada podem predominar sintomas como o isolamento social, o comportamento excêntrico, emoções pouco apropriadas e pensamentos ilógicos.
A esquizofrenia simples
Também é pouco freqüente. Aparece lentamente, normalmente começa na adolescência com emoções irregulares ou pouco apropriadas, pode ser seguida de um paulatino isolamento social, perda de amigos, poucas relações reais com a família e mudança de caráter, passando de sociável a anti-social e terminando em depressão. Nesta forma da esquizofrenia não se observam muitos surtos agudos.
Apesar desta classificação, é bom destacar que os pacientes esquizofrênicos nem sempre se encaixam perfeitamente numa de estas categorias. Também existem pacientes que não se podem classificar em nenhum de os grupos mencionados. A estes pacientes se pode dar o diagnóstico de esquizofrenia indiferenciada.
A Esquizofrenia tem cura?
Até bem pouco tempo se pensava que a esquizofrenia era sempre incurável e que se convertia, obrigatoriamente, numa doença crônica e por vida. Hoje em dia, entretanto, sabemos que este não é necessariamente o caso e uma porcentagem de pessoas que sofrem deste transtorno pode recuperar-se por completo e lavar uma vida normal como qualquer outra pessoa.
Outras pessoas, com quadros mais graves, apesar de dependerem de medicação, chegam a melhorar até o ponto de poderem desempenhar o trabalho, casar-se e ter família. Embora não se possa falar em cura, tal como se conceitua a cura total na medicina, a reabilitação psicossocial da expressiva maioria desses pacientes tem sido bastante evidente.
Apesar da esquizofrenia tender à deixar mais seqüelas a cada novo surto, o importante é saber que estas pessoas podem chegar a ter funções na sociedade e podem chegar a ser muito produtivas, mais ou menos sócio-cupacionalmente normais e dentro de suas possibilidades.
A família pode causar a esquizofrenia?
Não, não e não! Esta é a resposta mais simples. Apesar das infinitas investigações, a origem da esquizofrenia ainda não está clara. O que está claro, entretanto, é que não é causada por um trauma infantil, nem por um mau comportamento por parte dos pais.
Nos anos 60 e 70 muitas investigações se realizaram no campo da terapia familiar, sobre o comportamento de as famílias e transtornos mentais. Encontraram vários patrões de conduta comuns a famílias com problemas de saúde mental, o qual conduz a alguns profissionais a concluir, erroneamente, que a família poderia ser culpada pelos transtornos mentais de seus filhos. Nada mais falso.
Os sintomas da esquizofrenia resultam de desequilíbrios de substâncias neuroquímicas no cérebro, tias como a dopamina, serotonina, e noradrenalina. As últimas investigações indicam que estes desequilíbrios podem estar presentes no cérebro, inclusive antes do nascimento da pessoa.
Entretanto, o comportamento da família influi fortemente na reabilitação do individuo com esquizofrenia. Os estudos demonstram que a intervenção da família é de grande importância na prevenção das recaídas.
A esquizofrenia é herdada?
Em primeiro lugar convém fazer uma distinção entre o que é genético e o que é hereditário:
1) Se uma doença é genética, isso quer dizer que antes de nascer uma pessoa pode ter um gene ou uma programação que a conduza em direção à doença, mas em forma de probabilidade e não de certeza.
Cada um de nós carrega genes de diferentes doenças mas não as desenvolvemos obrigatoriamente. Um exemplo claro disso é o câncer de pulmão, identificado em genes de pessoas sadias não fumantes. Uma pessoa que tenha este gene teria uma predisposição genética a desenvolver a doença, mas isso não quer dizer que esta pessoa vá desenvolvê-la obrigatoriamente. De fato, se não fumar, levar uma vida não estressante, enfim, se não cumprir os requisitos necessários ao desenvolvimento da doença não terá câncer de pulmão.
2) Uma doença hereditária é uma doença genética que se transmitirá, com certeza, de uma geração a outra e, além disso, terá uma porcentagem fixa e calculada de novos casos da doença na geração seguinte.
Um exemplo de uma doença hereditária é a Coréia de Huntington. Esta doença crônica supõe um degeneração corporal e mental que se passa de uma geração a outra, desenvolvendo-se em 50% dos filhos. Quer dizer que um paciente de Huntingtom que decide ter um filho sabe, de antemão, que a cada dois filhos que nascerem, no mínimo um desenvolverá a enfermidade.
Até o momento têm sido inconclusivos os estudos que afirmam, indubitavelmente, se a esquizofrenia é genética ou hereditária, embora já se tenha certeza absoluta de que a probabilidade de filhos esquizofrênicos é maior se um dos pais for esquizofrênico e, muito maior, se ambos forem.
Na população geral a esquizofrenia aparece numa de cada cem pessoas (fator de risco de 1%).
- Se tiver um avô com a esquizofrenia o fator risco sobe para 3%
- Se um dos pais ou um irmão sofre de esquizofrenia o risco é de 10-20%
- Se ambos pais sofrem de esquizofrenia o risco é de 40-50%
Quais são os efeitos secundários da medicação?
Todos os medicamentos produzem efeitos secundários e a medicação prescrita em casos de esquizofrenia não é uma exceção. A medicação que se prescreve aos pacientes com esquizofrenia se chama antipsicótico (antes chamados neuroléptico). Os efeitos secundários nem sempre são evidentes e são de menor gravidade que os próprios sintomas da esquizofrenia. Muitos pacientes cometem o erro de deixar de tomar a medicação quando aparecem estes efeitos ou quando algum conhecido “alerta” para os perigos de tais medicamentos.
Na realidade o que tem que ser feito é informar-se com o psiquiatra sobre as dúvidas e sobre o que está sentindo. É muito importante saber diferenciar entre os efeitos secundários da medicação e os próprios sintomas da esquizofrenia.
Veja alguns efeitos colaterais mais comuns:
Sonolência
A sonolência é um aumento no sono do paciente. Talvez seja difícil levantar-se da cama de manhã, dorme mais que o normal, tem vontade de dormir durante o dia, etc. Por outro lado não são raros os comentários como "Estou dopado", "Sinto-me como um zumbi", ou outros, também de teor culturalmente pejorativo.
Efeitos extrapiramidais ou parkinsonismo
Esses sintomas são assim chamados pela semelhança com os sintomas da Doença de Parkinson. O paciente que manifesta estes efeitos não sofre de Doença de Parkinsom, simplesmente a dose da medicação deve de ser melhor ajustada. Esses efeitos se podem corrigir com medicamentos anti-parkinsonianos, tipo akineton®, artane®.
Os efeitos parkinsonianos se manifestam na forma de movimentos ou posturas involuntárias: o tremor das mãos, flexões ou fixações dos músculos. Assim sendo, não é raro que o paciente usando antipsicóticos tenha a boca ou os músculos da face numa postura entranha, talvez a boca permaneça aberta ou semi-aberta. Também é possível que a língua se força para um lado, dificultando a fala ou fazendo com que a saliva escorra da boca.
Efeitos anticolinérgicos
Esses efeitos secundários se referem a visão borrada, secura da boca, retenção urinária, hipotensão arterial.
Dificuldades sexuais
Poucas vezes se encontram citadas como efeitos secundários dessa medicação. Também pode ser provável que os sintomas sexuais se devam a sintomas da depressão que a vezes acompanha a esquizofrenia.
Acatisia Consiste numa inquietação constante. O paciente é incapaz de sentar-se no mesmo lugar durante muito tempo. Ele se levanta e muda de assento várias vezes em poucos minutos ou se ajusta muitas vezes no sofá. Este é um efeito secundário bastante desconfortável porque os que estão próximos podem pensar erroneamente que o paciente está nervoso.
A acatisia é um efeito secundário que pode chegar a ser muito molesto para o paciente e tem solução fácil; com pequenas modificações do tratamento.
Alguns benefícios do tratamento medicamentoso:
Elimina vozes, visões e o falar consigo mesmo
Elimina as crenças entranhas e falsas (delírios).
Diminui a tensão e agitação.
Ajuda a pensar com clareza e a concentrar-se melhor.
Reduz os medos, a confusão e a insônia.
Ajuda a falar de forma coerente.
Ajuda a sentir-se mais feliz, mais expansivo e mais sadio.
Ajuda a se comportar de forma mais apropriada.
Os pensamentos hostis, estanhos ou agressivos desaparecem.
Diminuem muito as recidivas e a necessidade de internação hospitalar
Veja mais 11 dúvidas de Esquizofrenia
1. O esquizofrênico é violento?
Em geral o esquizofrênico não é violento ou perigoso. Fora da crise é uma pessoa como qualquer outra. Alguns, quando em crise, se tornam agressivos, verbal ou fisicamente, pois os delírios ou as alucinações podem fazê-los sentir-se ameaçados.
Nesses momentos, é importante conversar com a pessoa sem provocá-la, mantendo um diálogo franco e tranqüilo. Na hipótese de ser necessário conter um ato agressivo, é preciso contar com mais pessoas para evitar que o paciente ou terceiros se machuquem. Episódios de agressividade, a depender da intensidade, são situações que indicam a necessidade de eventual internação para garantir a integridade do paciente ou terceiros.
2. Todos os esquizofrênicos são violentos quando em crise?
Não. Mesmo durante crises intensas, a maioria dos portadores de esquizofrenia não manifesta agressividade importante. O comportamento agressivo depende, como indicado na resposta anterior, da natureza dos delírios e das alucinações que a pessoa apresenta.
3. O que fazer quando, ao obter melhora com a medicação, o portador de esquizofrenia abandona seu uso, diminui as dosagens necessárias e não quer mais saber de remédios? Como a família pode agir nesses casos, para evitar novo surto?
Deve-se tentar dialogar, expor as evidências de que a medicação evita a recaída. Infelizmente, muitas vezes são necessárias várias recaídas até que o doente se conscientize da gravidade da doença, de seu curso com recaídas e da necessidade do tratamento contínuo.
Nas recaídas pode ser necessário internar a pessoa até que ela volte à normalidade. Pela legislação em vigor, a família e o médico têm o direito de internar o portador quando em crise mesmo contra sua vontade. Por crise, entende-se que o portador está delirando, fora da realidade, inadequado, sem controle de si mesmo e de seus atos. Nesse momento, a internação é uma medida de proteção e tratamento. Cabe à família e ao médico, diante de uma situação de crise, avaliar a real necessidade de internação. Há recaídas que não exigem necessariamente internação, principalmente quando tratadas precocemente.
4. Em que situações a internação é necessária? Quanto tempo deve durar? Existem internações "para sempre"?
A internação é indicada nos momentos de crise ou de surto agudo, quando então o esquizofrênico não tem controle sobre si mesmo. Deve ser a mais curta possível e, com os atuais antipsicóticos, são suficientes um mês ou mês e meio dias para controlar as manifestações mais graves da doença.
Não se recomendam internações prolongadas ou "para sempre". Para os crônicos, são indicadas pensões e/ou oficinas protegidas que os capacitem a voltar viver independentemente.
5. A família deve manter total observação ou supervisão em relação ao paciente como, por exemplo, arrumando seu quarto, examinando seus objetos, acompanhando-o quando sai à rua?
A ajuda deve ser no sentido de promover a maior independência possível do paciente. Ele deve ser incentivado a cuidar de suas coisas e de sua higiene. Tão logo quanto possível ele deve voltar a caminhar pela cidade independentemente. Essas atitudes visam preservar a auto-estima do paciente, evitando constrangimentos.
6. Considerando-se a rotina familiar, o que pode ser solicitado ao portador de esquizofrenia em termos de colaboração, participação, coisas tais como, cuidar de seu quarto, lavar o quintal, lavar a louça, fazer compras, ir ao banco?
No início, ele deve ser acompanhado, até recuperar as habilidades perdidas. Aos poucos, deve ir assumindo responsabilidades como qualquer membro da família, de acordo com suas possibilidades.
7. Como orientar o portador de esquizofrenia em termos de administrar o dinheiro, valor das coisas, preços, trocos, economia?
A orientação pedagógica é imprescindível. O portador deve ser orientado para que possa compreender o valorizar o preço das coisas e administrar seu dinheiro.
8. O que deve a família fazer para garantir a tranqüilidade futura do portador de esquizofrenia no que se refere a sua segurança social: pensão, aposentadoria, habitação, assistência médica, medicamentos?
As alternativas de atuação familiar, nesses casos, são variadas e dependem da situação específica de cada família, não apenas no que se refere à variável sócio-econômica, mas também no acolhimento oferecido ao paciente pelos demais membros da família, quando há os casos em que apenas alguns membros da família assumem os cuidados necessários.
Em casos crônicos, nos quais o portador não tenha mais condições de trabalhar, é importante que a família propicie condições para a segurança social futura do paciente, providenciando sua aposentadoria e/ou auxílio benefício. Condições de moradia, assistência médica e de defesa de seus direitos devem ser igualmente propiciadas, pois, como qualquer outra pessoa, os portadores de esquizofrenia têm direito à cidadania plena.
9. Um esquizofrênico pode dirigir veículos?
Dirigir veículos é uma questão de bom senso. Se ele estiver controlado, fora de crise e tomando regularmente a dose de manutenção, tem condições de dirigir veículos, desde que tenha consciência de que a medicação pode eventualmente reduzir a rapidez de seus reflexos. Convém ser acompanhado inicialmente por familiares que avaliam suas habilidades.
10. Quais são os sinais de recaída? O que a família pode fazer quando os perceber?
Os principais sinais e sintomas de recaída são as alterações de comportamento. Irritabilidade, insônia, comportamento agitado ou de isolamento social podem ser os sintomas de recaída, assim como alucinações e delírios.
Tão logo o familiar perceba ou suspeite de recaída, deve levar o paciente para uma avaliação médica, de modo que o psiquiatra possa intervir rapidamente, modificando a medicação ou a dose que o paciente recebe. Todo esforço deve ser feito para evitar uma nova recaída.
11. A dificuldade de contato social dos portadores de esquizofrenia dificulta que estabeleçam relações afetivas, tais como, namorar, encontrar companheiros(as), relacionar-se sexualmente? É possível ao familiar ajudá-los na busca desses objetivos?
Apesar da dificuldade em manter contato social, alguns portadores da doença conseguem encontrar um(a) companheiro(a), estabelecer relacionamentos afetivos significativos e manter relacionamentos sexuais. Os familiares devem orientá-los na busca de um relacionamento que não venha a ser estressante e que possa desencadear recaídas.
Tratando-se tais dificuldades, normalmente derivadas do isolamento social, a família pode ajudar incentivando a participação dos portadores nas mais diversas formas de atividades voltadas à ressocialização, tais como a freqüência a centros de convivência, lazer e cultura, grupos de auto-ajuda etc. Quanto ao relacionamento sexual, devem estar orientados sobre os cuidados para evitar doenças sexualmente transmissíveis (por exemplo, AIDS), principalmente o uso de camisinha. As mulheres devem ser acompanhadas também por ginecologista, que pode orientar quanto a métodos contraceptivos seguros, como remédios anticoncepcionais ou DIU.
para referir:
Ballone GJ - Perguntas mais freqüentes sobre Esquizofrenia - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2005
ORIENTAÇÃO PARA FAMILIARES DE PACIENTES ESQUIZOFRÊNICOS
ORIENTAÇÃO PARA FAMILIARES DE PACIENTES ESQUIZOFRÊNICOS
Respostas a Problemas Comuns
As famílias com uma pessoa esquizofrênica tem muitos problemas para resolver. Livros e conselhos de outras famílias podem ser bons, mas a decisão final deve ser de cada família, já que cada paciente e família são únicos. Ao ler essas sugestões seria importante lembrar como é essa pessoa e tentar separar quais problemas vêm da sua personalidade, e quais provém da esquizofrenia. A esquizofrenia pode aparecer em pessoas com personalidades diferentes, e as famílias deveriam se lembrar que as pessoas preguiçosas ou manipuladoras antes de adoecer, provavelmente continuarão assim depois da doença.
COMO DEVO ME COMUNICAR COM ALGUÉM COM ESQUIZOFRENIA?
Pessoas com esquizofrenia tem uma grande dificuldade para lidar com estímulos externos de qualquer tipo, especialmente quando há dois ou mais estímulos ao mesmo tempo. Por causa disso, as comunicações devem ser breves, concisas e claras. Faça uma pergunta de cada vez. A pergunta: ”Foi bom o passeio, quem foi com você?” Pode ser uma pergunta clara para a maioria das pessoas, mas para uma pessoa com esquizofrenia pode ser uma sobrecarga. Uma solução seria perguntar, “Foi bom o passeio?”, aguardar a resposta, para então, perguntar, “Quem foi com você?”.
Não vale a pena tentar discutir com o esquizofrênico a realidade de seus delírios. Essas tentativas geralmente terminam com desentendimentos e raiva. Ao invés de discutir com o paciente, faça uma simples afirmação de que não concorda. Isso pode ser feito sem desafiar ou provocar o paciente. Uma resposta razoável à afirmação: “tem cobras no meu quarto”, não seria uma afirmação categórica de que não há nenhuma cobra lá. O paciente deve ter algum motivo para acreditar que há cobras no seu quarto, pode ser que tenha ouvido ou até visto cobras lá.
Aconselhamos que as famílias respeitem as experiências sensoriais do paciente, sem, no entanto, aceitar suas interpretações dessa experiência. Uma resposta, por exemplo, poderia ser: “eu sei que você tem algum motivo para acreditar que tem cobras lá, mas eu acho que seu cérebro está enganando você, por causa da sua doença”. Outra resposta pode ser simplesmente: “eu não acredito que haja cobras lá”.
Muitas vezes os membros das famílias ou amigos do paciente lidam com as falsas crenças do paciente de uma forma sarcástica ou engraçada, como por exemplo: “Eu também vi cobras no seu quarto... e você viu as que estavam na cozinha?”. Essas respostas não ajudam o paciente, e os deixam confusos. Reforçam suas crenças e torna mais difícil para eles separarem suas experiências pessoais da realidade. Procure ser verdadeiro , não minta para o paciente. Revele com calma que você não está ouvindo ou vendo nada de estranho, mas evite brigas e situação de confronto.”Você precisa falar mais com seu médico sobre isso que está sentindo!” – pode ser uma maneira de faze-lo distinguir aos poucos o seu mundo imaginário do mundo real.
Uma maneira de ajudar o paciente a lidar com seus delírios é encorajá-lo a expressá-los somente em casa ou com os profissionais que tratam dele. Entre familiares, amigos e profissionais da área, seus delírios não causam problemas, mas em situações públicas podem prejudicá-lo. Muitos pacientes entendem isso bem e expressam suas idéias ou comportamentos estranhos somente em casa ou em ambientes protegidos.
Acima de tudo, é importante manter a calma. Tenha confiança que você pode lidar com qualquer idéia, por mais estranha que ela seja. Se as alucinações auditivas estão piores naquele dia, faça um comentário simples como: “Lamento perceber que as vozes estão te atrapalhando mais hoje”, da mesma maneira como você comentaria que a artrite de uma pessoa está pior.
O QUE DEVO FAZER QUANDO O PACIENTE SE ISOLA?
É muito importante que a família perceba e aceite a necessidade que o paciente tem de se isolar. Muitas vezes, apesar de a pessoa querer estar em companhia de alguém realizando alguma atividade, não quer relacionar-se diretamente com ninguém. Se passar um período do dia trabalhando, é possível que esteja sobrecarregada, porque além do que se passa ao seu redor, muitas vezes ainda tem que lidar com o que vem de dentro. Portanto, pode chegar em casa precisando se recolher para seu mundo interno, parecendo fria e distante.
Às vezes esse retraimento social é muito pronunciado e é difícil decidir o que fazer. É melhor insistir para que a pessoa saia do quarto e venha se relacionar, ou é melhor deixá-la sozinha? Como regra geral, é melhor deixar a pessoa só. Se o isolamento continuar, é possível que esteja indicando uma recaída e que seja necessária uma avaliação psiquiátrica.
Entretanto, na maioria dos casos, o isolamento é uma forma de lidar com o caos que se passa na mente do paciente, e é uma reação adequada.
Nesses momentos, a família deve tentar não tomar esse isolamento como uma rejeição pessoal, e continuar disponível nos momentos em que o paciente quiser-se comunicar. Mas é necessário que a família esteja solicita e disposta a dialogar com ele sobre seus sentimentos. Ele pode aceitar melhor sair com uma pessoa específica do que com toda a família reunida pois nas ocasiões de mal-estar e crise é mais difícil para o paciente conviver em grupo.
Em situações sociais não se devem ter muitas expectativas. Para uma pessoa com esquizofrenia, é difícil manter um diálogo, e entender o que está sendo dito. O número de pessoas fazendo visita na casa onde o paciente mora, deve ser limitado, para aliviar a pressão que essas situações causam para ele. Ele consegue lidar com uma visita por vez; uma reunião de pessoas muitas vezes significa uma sobrecarga. Da mesma forma, saídas para festas e reuniões fora de casa são, em geral, uma experiência difícil e confusa para o paciente.
QUANTA RESPONSABILIDADE POSSO DAR?
Outro desafio para a família é avaliar quanta responsabilidade dar ao paciente, e quanto controle ele tem sobre si mesmo. A maioria dos pacientes tem algum controle e pode assumir responsabilidades, mas isso varia muito de paciente para paciente, além de ser variável para o mesmo paciente. Alguns pacientes relatam que podem mandar suas alucinações pararem por um pequeno intervalo.
Muitos, com o tempo aprendem a controlar suas alucinações auditivas mantendo atividades rotineiras; por exemplo, assistindo televisão e ouvindo música ou usando fones de ouvido.
Quando o paciente se despe na frente de alguém é porque suas vozes mandaram ou é porque está bravo com sua família? Às vezes o paciente aprende a utilizar seus sintomas para manipular as pessoas ao redor e conseguir o que quer. Pode não querer mais morar com alguém, ou pode querer voltar ao hospital por algum motivo. Essa situação, por exemplo, não significa falta de controle.
Aconselhamos que a medicação seja controlada ou supervisionada pela família, já que tomá-la continuamente é, em geral, fundamental para que o paciente não volte a ser hospitalizado.
Para avaliar se o paciente pode viajar sozinho, se pode sair e voltar tarde, se pode cuidar de si mesmo, deve-se aumentar sua autonomia aos poucos. Antes de sair para um show à noite, por exemplo, é importante que já tenha saído e feito alguma compra durante o dia. É importante certificar-se que não esteja se envolvendo com tóxicos, e não cause problemas em público por causa de comportamentos estranhos. Quando o paciente pede por mais autonomia, a família deve estabelecer uma série de condições que ele deve respeitar antes de ter mais autonomia. Para sair à noite, por exemplo, a família pode exigir que conheça bem o caminho do ônibus e que se lembre de trancar a casa toda vez que sai. Outra forma de mostrar que pode ter mais autonomia, é cuidando de algumas tarefas da casa. Essas tarefas podem não ser bem recebida quando o paciente é pouco ativo, mas pode ser uma forma de ele mostrar alguma independência e aumentar sua auto-estima. Certamente não será visível prender o paciente em casa temendo pelo que lhe aconteça. Talvez melhor seja que ele ganhe uma autonomia progressiva a partir da sua capacidade de resolver pequenos problemas em casa. Se os atritos entre paciente entre paciente e família forem freqüentes pode ser conveniente uma curta Terapia de Família, em geral feita com psicólogo/ As. Social treinado que permita um novo acordo das relações intrafamiliares.
A questão do manejo de dinheiro pode ser ainda mais complicada. Alguns pacientes, apesar de pequenas dificuldades, são responsáveis com seu dinheiro. A maioria, entretanto, não consegue lidar com dinheiro e entrega tudo que tem consigo se alguém pedir. Para eles é difícil discriminar se a compra de algo é necessária ou não. Pode-se ensinar essa pessoa, por exemplo, que terá mais autonomia com dinheiro à medida que tiver mais autonomia em outras situações. Por exemplo, pode-se combinar com uma pessoa com dificuldade em manter sua higiene pessoal, que terá um pouco mais de dinheiro por semana para seus gastos pessoais, se tomar banho sem ser mandada. O cumprimento de outras pequenas tarefas também pode servir como indício de que está pronta para receber um pouco mais de responsabilidade.
Às vezes depois de uma crise psicótica severa, (em que o paciente precisava de ajuda até para se vestir, por exemplo), a família tem dificuldade em acreditar que em algumas semanas já tem condições de passear sozinha ou lidar com dinheiro. Essas questões devem ser tratadas da mesma forma que com os outros filhos, á medida que vão crescendo. Deve-se conversar abertamente e deixar o paciente saber quais as condições para receber, pouco a pouco, maior autonomia mesmo que relativa. Se os acontecimentos com seu parente esquizofrênico estiverem pior procure conversar mais com o médico que o acompanha. Se ele estiver fazendo também psicoterapia ou freqüentando um Hospital _Dia converse também sobre o caso com os outros profissionais que o acompanham. Hoje há muitas técnicas novas de tratamento, há novos remédios e seu parente se não está se adaptando a um tipo de tratamento, há novos remédios e seu parente se não está se adaptando a um tipo de tratamento pode-se tentar outro. Mas procure se informar bem sobre o local aonde ele está se tratando, quem são os profissionais. Se ele tem realmente Esquizofrenia, o caso deve ser acompanhado obrigatoriamente por um médico psiquiatra e usar medicação regularmente.
Respostas a Problemas Comuns
As famílias com uma pessoa esquizofrênica tem muitos problemas para resolver. Livros e conselhos de outras famílias podem ser bons, mas a decisão final deve ser de cada família, já que cada paciente e família são únicos. Ao ler essas sugestões seria importante lembrar como é essa pessoa e tentar separar quais problemas vêm da sua personalidade, e quais provém da esquizofrenia. A esquizofrenia pode aparecer em pessoas com personalidades diferentes, e as famílias deveriam se lembrar que as pessoas preguiçosas ou manipuladoras antes de adoecer, provavelmente continuarão assim depois da doença.
COMO DEVO ME COMUNICAR COM ALGUÉM COM ESQUIZOFRENIA?
Pessoas com esquizofrenia tem uma grande dificuldade para lidar com estímulos externos de qualquer tipo, especialmente quando há dois ou mais estímulos ao mesmo tempo. Por causa disso, as comunicações devem ser breves, concisas e claras. Faça uma pergunta de cada vez. A pergunta: ”Foi bom o passeio, quem foi com você?” Pode ser uma pergunta clara para a maioria das pessoas, mas para uma pessoa com esquizofrenia pode ser uma sobrecarga. Uma solução seria perguntar, “Foi bom o passeio?”, aguardar a resposta, para então, perguntar, “Quem foi com você?”.
Não vale a pena tentar discutir com o esquizofrênico a realidade de seus delírios. Essas tentativas geralmente terminam com desentendimentos e raiva. Ao invés de discutir com o paciente, faça uma simples afirmação de que não concorda. Isso pode ser feito sem desafiar ou provocar o paciente. Uma resposta razoável à afirmação: “tem cobras no meu quarto”, não seria uma afirmação categórica de que não há nenhuma cobra lá. O paciente deve ter algum motivo para acreditar que há cobras no seu quarto, pode ser que tenha ouvido ou até visto cobras lá.
Aconselhamos que as famílias respeitem as experiências sensoriais do paciente, sem, no entanto, aceitar suas interpretações dessa experiência. Uma resposta, por exemplo, poderia ser: “eu sei que você tem algum motivo para acreditar que tem cobras lá, mas eu acho que seu cérebro está enganando você, por causa da sua doença”. Outra resposta pode ser simplesmente: “eu não acredito que haja cobras lá”.
Muitas vezes os membros das famílias ou amigos do paciente lidam com as falsas crenças do paciente de uma forma sarcástica ou engraçada, como por exemplo: “Eu também vi cobras no seu quarto... e você viu as que estavam na cozinha?”. Essas respostas não ajudam o paciente, e os deixam confusos. Reforçam suas crenças e torna mais difícil para eles separarem suas experiências pessoais da realidade. Procure ser verdadeiro , não minta para o paciente. Revele com calma que você não está ouvindo ou vendo nada de estranho, mas evite brigas e situação de confronto.”Você precisa falar mais com seu médico sobre isso que está sentindo!” – pode ser uma maneira de faze-lo distinguir aos poucos o seu mundo imaginário do mundo real.
Uma maneira de ajudar o paciente a lidar com seus delírios é encorajá-lo a expressá-los somente em casa ou com os profissionais que tratam dele. Entre familiares, amigos e profissionais da área, seus delírios não causam problemas, mas em situações públicas podem prejudicá-lo. Muitos pacientes entendem isso bem e expressam suas idéias ou comportamentos estranhos somente em casa ou em ambientes protegidos.
Acima de tudo, é importante manter a calma. Tenha confiança que você pode lidar com qualquer idéia, por mais estranha que ela seja. Se as alucinações auditivas estão piores naquele dia, faça um comentário simples como: “Lamento perceber que as vozes estão te atrapalhando mais hoje”, da mesma maneira como você comentaria que a artrite de uma pessoa está pior.
O QUE DEVO FAZER QUANDO O PACIENTE SE ISOLA?
É muito importante que a família perceba e aceite a necessidade que o paciente tem de se isolar. Muitas vezes, apesar de a pessoa querer estar em companhia de alguém realizando alguma atividade, não quer relacionar-se diretamente com ninguém. Se passar um período do dia trabalhando, é possível que esteja sobrecarregada, porque além do que se passa ao seu redor, muitas vezes ainda tem que lidar com o que vem de dentro. Portanto, pode chegar em casa precisando se recolher para seu mundo interno, parecendo fria e distante.
Às vezes esse retraimento social é muito pronunciado e é difícil decidir o que fazer. É melhor insistir para que a pessoa saia do quarto e venha se relacionar, ou é melhor deixá-la sozinha? Como regra geral, é melhor deixar a pessoa só. Se o isolamento continuar, é possível que esteja indicando uma recaída e que seja necessária uma avaliação psiquiátrica.
Entretanto, na maioria dos casos, o isolamento é uma forma de lidar com o caos que se passa na mente do paciente, e é uma reação adequada.
Nesses momentos, a família deve tentar não tomar esse isolamento como uma rejeição pessoal, e continuar disponível nos momentos em que o paciente quiser-se comunicar. Mas é necessário que a família esteja solicita e disposta a dialogar com ele sobre seus sentimentos. Ele pode aceitar melhor sair com uma pessoa específica do que com toda a família reunida pois nas ocasiões de mal-estar e crise é mais difícil para o paciente conviver em grupo.
Em situações sociais não se devem ter muitas expectativas. Para uma pessoa com esquizofrenia, é difícil manter um diálogo, e entender o que está sendo dito. O número de pessoas fazendo visita na casa onde o paciente mora, deve ser limitado, para aliviar a pressão que essas situações causam para ele. Ele consegue lidar com uma visita por vez; uma reunião de pessoas muitas vezes significa uma sobrecarga. Da mesma forma, saídas para festas e reuniões fora de casa são, em geral, uma experiência difícil e confusa para o paciente.
QUANTA RESPONSABILIDADE POSSO DAR?
Outro desafio para a família é avaliar quanta responsabilidade dar ao paciente, e quanto controle ele tem sobre si mesmo. A maioria dos pacientes tem algum controle e pode assumir responsabilidades, mas isso varia muito de paciente para paciente, além de ser variável para o mesmo paciente. Alguns pacientes relatam que podem mandar suas alucinações pararem por um pequeno intervalo.
Muitos, com o tempo aprendem a controlar suas alucinações auditivas mantendo atividades rotineiras; por exemplo, assistindo televisão e ouvindo música ou usando fones de ouvido.
Quando o paciente se despe na frente de alguém é porque suas vozes mandaram ou é porque está bravo com sua família? Às vezes o paciente aprende a utilizar seus sintomas para manipular as pessoas ao redor e conseguir o que quer. Pode não querer mais morar com alguém, ou pode querer voltar ao hospital por algum motivo. Essa situação, por exemplo, não significa falta de controle.
Aconselhamos que a medicação seja controlada ou supervisionada pela família, já que tomá-la continuamente é, em geral, fundamental para que o paciente não volte a ser hospitalizado.
Para avaliar se o paciente pode viajar sozinho, se pode sair e voltar tarde, se pode cuidar de si mesmo, deve-se aumentar sua autonomia aos poucos. Antes de sair para um show à noite, por exemplo, é importante que já tenha saído e feito alguma compra durante o dia. É importante certificar-se que não esteja se envolvendo com tóxicos, e não cause problemas em público por causa de comportamentos estranhos. Quando o paciente pede por mais autonomia, a família deve estabelecer uma série de condições que ele deve respeitar antes de ter mais autonomia. Para sair à noite, por exemplo, a família pode exigir que conheça bem o caminho do ônibus e que se lembre de trancar a casa toda vez que sai. Outra forma de mostrar que pode ter mais autonomia, é cuidando de algumas tarefas da casa. Essas tarefas podem não ser bem recebida quando o paciente é pouco ativo, mas pode ser uma forma de ele mostrar alguma independência e aumentar sua auto-estima. Certamente não será visível prender o paciente em casa temendo pelo que lhe aconteça. Talvez melhor seja que ele ganhe uma autonomia progressiva a partir da sua capacidade de resolver pequenos problemas em casa. Se os atritos entre paciente entre paciente e família forem freqüentes pode ser conveniente uma curta Terapia de Família, em geral feita com psicólogo/ As. Social treinado que permita um novo acordo das relações intrafamiliares.
A questão do manejo de dinheiro pode ser ainda mais complicada. Alguns pacientes, apesar de pequenas dificuldades, são responsáveis com seu dinheiro. A maioria, entretanto, não consegue lidar com dinheiro e entrega tudo que tem consigo se alguém pedir. Para eles é difícil discriminar se a compra de algo é necessária ou não. Pode-se ensinar essa pessoa, por exemplo, que terá mais autonomia com dinheiro à medida que tiver mais autonomia em outras situações. Por exemplo, pode-se combinar com uma pessoa com dificuldade em manter sua higiene pessoal, que terá um pouco mais de dinheiro por semana para seus gastos pessoais, se tomar banho sem ser mandada. O cumprimento de outras pequenas tarefas também pode servir como indício de que está pronta para receber um pouco mais de responsabilidade.
Às vezes depois de uma crise psicótica severa, (em que o paciente precisava de ajuda até para se vestir, por exemplo), a família tem dificuldade em acreditar que em algumas semanas já tem condições de passear sozinha ou lidar com dinheiro. Essas questões devem ser tratadas da mesma forma que com os outros filhos, á medida que vão crescendo. Deve-se conversar abertamente e deixar o paciente saber quais as condições para receber, pouco a pouco, maior autonomia mesmo que relativa. Se os acontecimentos com seu parente esquizofrênico estiverem pior procure conversar mais com o médico que o acompanha. Se ele estiver fazendo também psicoterapia ou freqüentando um Hospital _Dia converse também sobre o caso com os outros profissionais que o acompanham. Hoje há muitas técnicas novas de tratamento, há novos remédios e seu parente se não está se adaptando a um tipo de tratamento, há novos remédios e seu parente se não está se adaptando a um tipo de tratamento pode-se tentar outro. Mas procure se informar bem sobre o local aonde ele está se tratando, quem são os profissionais. Se ele tem realmente Esquizofrenia, o caso deve ser acompanhado obrigatoriamente por um médico psiquiatra e usar medicação regularmente.
SATISFAÇÃO COM O PESO CORPORAL E BEM ESTAR SUBJETIVO
SATISFAÇÃO COM O PESO CORPORAL E BEM ESTAR SUBJETIVO
LUCIANA MELLO DE QUEIRÓS MATTOSO
RESUMO
O bem-estar subjetivo (BES) e a satisfação com o peso corporal (SPC) vêm tornando-se dois importantes objetos de pesquisa dentro da psicologia atual. Há fortes indícios apontando para a existência de uma estreita ligação entre ambos, sendo uma avaliação positiva do peso corporal uma forte variável para a experiência do BES.
O objetivo do presente trabalho é ser um estudo exploratório visando examinar as múltiplas variáveis interligadas com a avaliação, satisfação e importância dada ao peso corporal, o que faz com que esta questão torne-se tão importante para o BES.
Para atingir o objetivo do estudo, 60 participantes responderam a um questionário com 28 frases incompletas acerca da problemática do peso corporal para o indivíduo e como este acredita que a mesma seja vivenciada por outras pessoas.Conclui-se pelos dados levantados que existem muitos preconceitos relacionados ao peso corporal, e que a experiência da insatisfação com o peso corporal está associada a emoções negativas, redução da auto-estima, prejuízos na vida social, amorosa e sexual (itens importantes para o BES). A maioria dos participantes (80%) acredita que pessoas insatisfeitas com o peso corporal sentem-se piores emocionalmente. Adicionalmente, pode-se perceber que há uma diferença na percepção das mulheres e dos homens obesos, principalmente no que diz respeito a itens direta ou indiretamente relacionados ao BES, tais como emoções negativas e prejuízos na vida social, que seriam maiores em mulheres obesas. Observou-se muitas crenças distorcidas relacionadas com o peso corporal, suas causas (e.g., 31% acreditam que a obesidade é resultado de descontrole alimentar e 34% atribuem à dificuldades emocionais), conseqüências (para 55% dos participantes afetaria a vida de uma maneira geral) e métodos buscados para a perda de peso (65% buscam dietas, principalmente com métodos radicais). Do grupo de participantes, 75,54% das mulheres gostaria de perder peso, enquanto que 39,99% dos homens gostaria do mesmo.
I- INTRODUÇÃO
A análise proposta avalia a criação e imposição social de um padrão estético, ou seja, um princípio de “boa forma”- observado claramente na mídia e outros veículos de comunicação- como objetivo a ser alcançado, e, na impossibilidade de alcançá-lo, na busca por alternativas que sustentem essa busca.
É nesta medida que comportamentos de busca de um peso corporal “aceitável” são identificados, como, ainda, preconceitos, críticas e auto-críticas. Assim, a busca por um corpo perfeito – ou pelo que se elegeu como corpo perfeito – é o alvo final de uma batalha. Dietas, exercícios praticados à exaustão, produtos e aparelhos para reformular a silhueta e sentimentos positivos e negativos foram constatados por este estudo, na intenção de recolher dados para corroborar o comprometimento do bem-estar subjetivo, fundamental para a saúde afetiva e emocional das pessoas.
Os distúrbios da imagem corporal (e.g., anorexia e bulimia nervosa), reflexos da imposição cultural e massificante pelos meios de comunicação em busca de um corpo tido como garantia de sucesso sexual e pessoal, são enquadrados na pesquisa, de modo a ratificar a urgência por um questionamento de tais valores contemporâneos.
A relação sucesso pessoal versus forma física ainda é extremamente forte no imaginário, e os estudos indicam que os indivíduos sentem-se bem quando estão em paz com o espelho e a opinião alheia. Entretanto, neste trabalho questiona-se as formas de avaliação pessoal no quesito “forma física” tendo em vista a complexidade da percepção humana, e, principalmente, de sua avaliação do que é percebido.
Para o ramo da psicologia, discutir o que torna as pessoas vulneráveis socialmente só faz contribuir para uma descoberta do outro por si mesmo, para o engrandecimento pessoal e para a busca da felicidade. Este trabalho pretende somar à discussão sobre o BES a influência da estética corporal neste conceito, sua aplicação prática e o retrato do pensamento comum na relação corpo/mente.
1- FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA:
BEM-ESTAR SUBJETIVO E SATISFAÇÃO COM O PESO CORPORAL:
Segundo Diener (1984), na literatura referente ao bem-estar subjetivo está incluída a felicidade, a satisfação com a vida e a preponderância de sentimentos positivos. Ainda segundo o autor, as definições encontradas acerca do bem-estar subjetivo podem ser agrupadas em três categorias: na primeira, o bem-estar é definido a partir de condições externas; na segunda, como auto-avaliação da vida em termos positivos; e na terceira como freqüente preponderância de sentimentos positivos sobre sentimentos negativos.
Independentemente da abordagem do BES, este relaciona-se com vários domínios da vida do indivíduo (família, amigos, trabalho, finanças, comunidade). Ou seja, o BES está relacionado com a satisfação em áreas importantes da vida das pessoas.
Há uma forte relação entre a satisfação consigo mesmo e o BES (Diener, 1984), assim como a elevada auto-estima é um dos mais fortes precursores do BES ( Diener e Diener, 1995).
Diener e Fujita (1995) mostram estudos que sugerem ser importante para o BES questões como dinheiro e habilidades sociais (variando de acordo com as metas do indivíduo). Para os autores, algumas variáveis também são influenciadas pelos benefícios proporcionados ao sujeito como, por exemplo, o sujeito fisicamente mais atraente pode ter mais amigos, mais relacionamentos amorosos, ajudar no emprego e sentir-se melhor consigo.
A felicidade, que é vista como uma das subdimensões do bem-estar subjetivo, merece aqui um lugar de destaque para a compreensão da importância da SPC para a experiência do BES.
Com base nos estudos de Csikszentmihalyi (1992), a felicidade dependeria muito mais dos aspectos subjetivos do indivíduo do que os acontecimentos propriamente ditos. Para o autor, a felicidade seria uma disposição para experimentar de forma mais positiva os eventos da vida diária. Por outro lado, experimenta-se a felicidade quando as pessoas atingem uma meta ou um objetivo.
Segundo o autor, em nossa sociedade há uma tendência a um estado crônico de insatisfação e as realizações são sempre seguidas do estabelecimento de novas necessidades e desejos. Este seria um dos principais obstáculos para a felicidade. A felicidade estaria muito mais centrada no modo como se filtra e interpreta as experiências que na ocorrência de acontecimentos positivos ou negativos: “O problema surge quando as pessoas se concentram tanto naquilo que desejam alcançar que deixam de obter prazer no presente.” (Csikszentmihalyi, 1992, p.25). Um forte obstáculo para a felicidade seria a criação, por parte dos indivíduos, de metas ou intenções de vida que se encontrem impedidas ou fortemente dificultadas por impossibilidades ou barreiras na realidade ou no mundo ao seu redor. As sucessivas impossibilidades de realização dos planos de vida tenderiam a enfraquecer os indivíduos, fazendo com que não buscassem novas metas e objetivos (Csikszentmihalyi, 1992).
Se o bem-estar está associado a uma tendência a ver e avaliar positivamente a si e aos eventos externos, a insatisfação com o peso corporal poderia ser vista como uma forma negativista e depreciadora de auto-avaliação. Do mesmo modo, quando observa-se que o excesso de peso corporal (real ou imaginado pelo indivíduo) realmente influencia na sociabilidade, na auto-estima e na avaliação de sua capacidade e habilidade pessoal (atributos estes associados à felicidade), a satisfação com o peso corporal será um agente preponderante para o bem-estar subjetivo.
O número de sujeitos insatisfeitos com o peso é bem superior ao número de obesos (e.g., Cash e Hanry, 1995). Isto acontece uma vez que a insatisfação com o peso é avaliada pela diferença entre o peso no qual o sujeito se avalia e aquele que ele considera o ideal. Desta forma, a satisfação com o peso corporal não depende apenas do dado objetivo da forma corporal do indivíduo, mas também envolve auto-avaliação emocional e cognitiva, assim como valorização e idealização de corpos magros.
Diener, Wolsic e Fujita (1995) estudaram a relação entre atratividade física e o bem-estar subjetivo. Os autores mostram a importância dada à atratividade na auto-avaliação e aceitação social. O estudo foi dividido em duas etapas, sendo que na primeira os sujeitos eram gravados em vídeo-tape e avaliados por outras pessoas no que diz respeito à atratividade física. Houve uma correlação entre atratividade física e bem-estar subjetivo. Porém, na segunda fase, quando elementos que aumentam a atratividade (ex. cabelo, roupa e jóias) foram suprimidos, sendo avaliada apenas a atratividade natural dos indivíduos, a correlação com o bem-estar diminuiu. Tais resultados sugerem que as pessoas mais felizes e com maior bem-estar subjetivo esforçam-se mais para aumentar sua atratividade física. O estudo revelou ainda que a auto-percepção de atratividade física está relacionada tanto com a atratividade física objetiva quanto com o bem-estar subjetivo. O peso corporal pode ser visto atualmente como um atributo muito importante para a atratividade física e, embora haja dificuldade para o emagrecimento, esta é uma variável modificável pelo indivíduo, e não um item de atratividade natural. Como os itens de atratividade física natural do indivíduo têm menor importância do que aqueles dependentes da ação da pessoa, o peso corpóreo pode ser visto como dependente da ação do indivíduo e, portanto, mais fortemente relacionado com o BES.
MÍDIA E PESO CORPORAL:
É notório o poder da mídia como reflexo e propagadoras do momento histórico e cultural, sendo ao mesmo tempo um reflexo do social e uma geradora de opiniões e atitudes. A todo momento a mídia diz o que comprar, o que vestir e como agir. Esse modelo de consumo influencia a avaliação e a importância da forma corporal na vida das pessoas. A valorização do “ser belo” e do peso corporal é ressaltada por um movimento crescente refletido na mídia.
Atualmente, a busca por formas corporais muito magras encontra-se em um movimento crescente (Garner e Garfinkel, 1985). Formas corporais acima do peso já foram vistas como sinônimo de saúde, riqueza e abundância (possibilidade econômica de alimentar-se bem). No entanto, hoje são vistas como desleixo e feiúra (Cogan, Bhalla, Sefa-Dedeh e Rothblum, 1996).
Observa-se um grande volume de revistas dedicadas ao assunto, vendidas e consumidas no cotidiano. Na televisão as atrizes são sempre belas e magras, ou sofrem se não o são. A maioria das protagonistas dos programas que mostra mulheres bonitas e bem-sucedidas é bem magra. A mídia mostra a magreza associada ao sucesso e à felicidade, interferindo, assim, na percepção de beleza, principalmente feminina. Nas passarelas desfilam corpos esbeltos e livres de gordura. A mensagem imposta de forma indireta (ou, muitas vezes, direta) é: seja magro e tenha um corpo em forma pois é algo fundamental.
As pessoas que estão fora das formas corporais determinadas pela mídia são marginalizadas, vistas como inferiores, discriminadas e, até mesmo, ridicularizadas. Porém, é possível perceber que este modelo de beleza e felicidade está muito distante da realidade da maioria das pessoas (devido ao grau de magreza e medidas corporais estabelecidas), provocando um forte sentimento de insatisfação e baixa auto-estima. Segundo Garner e Garfinkel (1985), nas duas últimas décadas a preocupação com relação ao peso corporal, principalmente das mulheres, vem aumentando diante deste panorama.
Além desta valorização do corpo magro, segundo Garner e Garfinkel (1985), ao longo dos últimos 25 anos houve um “emagrecimento” progressivo do modelo de beleza. As formas corporais valorizadas atualmente são muito mais magras do que há décadas atrás. Tal emagrecimento do padrão de beleza vem criando uma disparidade entre os padrões ideais e os padrões reais, uma vez que a maioria das mulheres não consegue atingir tal padrão imposto pelas indústrias de moda e propaganda. O modelo de magreza visto nas passarelas, na televisão e nas revistas não condiz com as formas corporais naturais da maioria das pessoas. As modelos costumam ter uma constituição já naturalmente muito magra ou dedicam suas vidas em academias e mesas de tratamentos estéticos para atingir tal forma.
Pode-se observar alguns movimentos sociais que favoreceram ao surgimento deste modelo de corpo “em forma”: primeiramente, a divulgação pela mídia das modelos de passarela- que precisavam ser magras para dar um melhor “caimento” para as roupas e cujas formas corporais justamente não iriam chamar a atenção, dando destaque às roupas, como verdadeiros “cabides humanos”- que passaram a sinônimo de beleza e elegância; paralelemente a isto, na década de 70 surgiu nos EUA a cultura fitness (surgimento de academias de ginástica, suplementos alimentares e venda de aparelhos de ginástica); da mesma forma, avanços na medicina comprovaram a associação entre várias patologias e o excesso de gordura (porém a obesidade que a medicina considera danosa está bem acima do padrão da moda); por outro lado, houve um grande aumento do índice de obesidade, principalmente entre os americanos, provocando um movimento de divulgação de dietas, métodos e produtos para emagrecer. Estes movimentos favoreceram a valorização da magreza, porém com padrões extremamente rígidos.
Muitas mulheres estão pagando preços altíssimos para atingir este modelo de beleza. Uma das conseqüências deste movimento é o aumento do número de mulheres apresentando um quadro de transtornos alimentares (principalmente anorexia e bulimia nervosa) que estão associados à busca excessiva de uma forma corporal muito magra (Garner e Garfinkel, 1985).
A identificação com o modelo da mídia e a dificuldade em atingi-lo têm colaborado para uma crescente insatisfação e insegurança feminina em relação à seus corpos . Até mesmo mulheres magras rotulam-se como obesas e muitas mulheres que estão estatisticamente abaixo do peso não reconhecem este fato (Garner e Garfinkel, 1985).
Pode-se notar o surgimento de uma verdadeira “epidemia diet”. A todo momento os indivíduos são bombardeados com propagandas de dietas milagrosas, remédios, alimentos “diet” e “light”, tratamentos para eliminação da gordura (às vezes até mesmo cirúrgicos), ginásticas etc.. A indústria americana de dieta rende aproximadamente 33 milhões de dólares por ano (Cogan et al, 1996). Há um verdadeiro culto à forma física livre de gordura. Celulite? Nem pensar! Isso provoca em boa parte das pessoas, principalmente mulheres, uma “fobia de gordura”. E como a gordura faz parte naturalmente do corpo das pessoas, isto acaba gerando uma auto-desvalorização de seus próprios corpos.
Busca-se uma perfeição física inatingível. Por mais que as pessoas dediquem horas em academias de ginástica, recorram a cirurgias plásticas, façam dietas extremamente restritivas, não atingirão tal “perfeição”. Porém, a mídia divulga fórmulas milagrosas e lucra com isso.
Garner e Garfinkel (1985) destacam o preconceito social contra a obesidade, evidências de uma diminuição significativa de oportunidades educacionais, empregos, promoção de trabalho e habitação em função do peso corporal. Os autores ainda documentam que a obesidade é vista como associada à estupidez, sujeira, preguiça, feiúra, tristeza e outros rótulos negativos. Um dado curioso desta pesquisa é o fato de que tais atributos negativos associados aos obesos são opiniões compartilhadas não só por pessoas magras, como também por indivíduos obesos.
INSATISFAÇÃO COM O PESO CORPORAL:
Cash e Henry (1995) constataram um aumento no nível de insatisfação corporal ao longo das últimas décadas. Cerca de 50% das mulheres de sua amostra apresentaram uma avaliação global negativa de sua aparência e preocupação em estar ou vir a estar acima do peso. O efeito da idade foi pequeno (maior entre 18 e 24 anos), porém com significante influência da raça e etnia, sendo melhor a auto-imagem nas afro-americanas do que nas hispânicas. Haveria uma significativa diferença entre homens e mulheres, sendo a auto-imagem muito mais desfavorável em mulheres.
Para os autores, a auto-imagem consiste em auto-percepção, cognição, afeto e comportamento no que diz respeito a atributos físicos. O estudo revela ainda que a auto-avaliação negativa da aparência entre mulheres de 18 e 70 anos aumentou de 30% encontrado na última década, para 48% no presente estudo.
II - OBJETIVOS
Este trabalho pretende estudar a satisfação com o peso corporal e sua influência no bem-estar subjetivo do indivíduo. Acredita-se que a satisfação com o peso corporal constitui uma importante variável no mundo moderno para a experiência do bem-estar subjetivo. Porém, tal influência dependerá de uma série de outros fatores, o que pretende-se investigar. Assim, este estudo tem como objetivo de levantar as variáveis associadas à problemática do peso corporal na atualidade que faz com que a mesma torne-se fundamental para o bem-estar subjetivo.
III- MÉTODO
1- PARTICIPANTES:
Por tratar-se de um estudo exploratório, optou-se por selecionar um grupo aleatório de sessenta (60) participantes, incluindo todas as idades, sexo, nível sócio-econômico e ocupação. Portanto, não foi utilizado nenhum critério de exclusão na seleção da amostra.
2- INSTRUMENTO:
De acordo com a teoria das representações sociais (Sá, 1996), há como um dos métodos eficazes de investigação a associação ou evocação livre, onde a partir de um elemento chave (podendo ser uma imagem, frases ou palavras) os participantes são solicitados a narrar ou escrever aquilo que vem a sua lembrança.
Assim, foi construído um questionário com 28 frases incompletas onde os participantes deveriam completá-las com o que viesse em sua lembrança. Todas as frases referem-se aos temas obesidade, peso corporal e bem-estar subjetivo (Anexo).
Constam do questionário dados pessoais para melhor definição da amostra, assim com uma breve instrução.
3- PROCEDIMENTO:
Os participantes foram abordados individualmente e solicitados a preencher o questionário. Nada foi dito a respeito do tema, apenas tratar-se de um estudo dentro do campo da psicologia. A todos foram dadas instruções adequadas, tais como as descritas no questionário, buscando-se enfatizá-las.
IV- RESULTADOS E CONCLUSÕES:
Cada frase incompleta foi analisada individualmente, buscando-se agrupar as respostas em grupos de conteúdos similares e com sua respectiva freqüência. Como houve mais de uma resposta para cada questão, a contagem das freqüências pode superar o número de participantes. Não houve a preocupação com a ordem das respostas, ou seja, qual foi colocada em primeiro lugar.
Constarão, ainda, da tabela as letras (P) para respostas positivas, (N) para respostas negativas e (NE) para respostas neutras ou indefinidas. Algumas questões não terão estas categorias pois suas respostas não podem ser divididas desta forma.
Obteve-se como principais resultados:
• Com freqüência as pessoas obesas (mais mulheres que homens) são consideradas mais infelizes e com mais dificuldades sociais. Tais resultados confirmam estudos anteriores sobre o preconceito em relação aos obesos e sua diferenciação sexual (e.g. Garner e Garfinkel, 1985 e Cogan et al, 1996).
• Para os entrevistados, o peso corporal influi decisivamente no modo positivo ou negativo de viver a vida. É por este motivo que o conceito de bem-estar subjetivo tem uma relação direta com a satisfação com o peso corporal.
• Não apenas o peso ou a forma corporal costuma gerar satisfação ou insatisfação, mas também a utilização de determinadas roupas ou a exposição a situações sociais específicas em função da forma corporal. Esse resultado mostra tanto a influência da indústria da moda com tamanhos e modelos que valorizam o corpo magro quanto a antecipação de um panorama (real ou imaginário) de preconceito social.
• Ao ver pessoas “em forma”, grande parte dos participantes logo sente desejo de ter corpo semelhante. Ou seja, corpo “em forma” é objeto de desejo. As pessoas “em forma” são admiradas.
• Ao sentir insatisfação com o peso corporal, a maioria dos participantes pensa logo em fazer dieta, muitas delas radicais. A incidência do comportamento de dieta realmente mostra-se elevada atualmente (e.g., Neumark-Sztainer et al, 1995 e Cogan et al, 1996).
• Os participantes acreditam que a obesidade é resultado de descontrole alimentar e emocional. Nenhum estudo encontrado relaciona a obesidade a tais fatores, o que indica a existência de um preconceito (Garner e Garfinkel, 1985).
• Os participantes acreditam que estar “acima do peso” afeta a vida das pessoas em vários aspectos, incluindo vida amorosa, sexual, social e emocional.
• Do grupo de participantes do sexo feminino, 75,54% gostariam de perder peso, enquanto o percentual masculino é de 39,99%. O resultado de estudos citados anteriormente indicam estatísticas similares, tanto no que diz respeito ao índice de desejo de perda de peso quanto à diferença entre homens e mulheres (e.g. Cash e Hanry, 1995; Neumark-Sztainer et al, 1995 e Thompson, 1990)
VI- CONSIDERAÇÕES FINAIS
“A vida é essencialmente um processo de adaptação às circunstâncias em que subsistimos. O segredo da saúde está no ajustamento às condições do mundo, que está permanentemente se modificando. O preço da dificuldade de adaptação está na doença.” (Jacob, 1995, p.270).
No presente estudo, percebe-se o processo de “ajustamento” aos padrões da contemporaneidade de valorização da estética e do corpo esbelto como marco de vitória. Porém, não somente o sentimento de desajustamento leva as pessoas à “doença” ou a uma redução do bem-estar subjetivo, como também à própria busca por tal ajustamento.
Antes de mais nada, é importante ficar bastante claro que não há aqui qualquer implicação de que pessoas obesas estejam necessariamente insatisfeitas com o peso corporal, ou ainda menos felizes. A variável estudada foi a insatisfação com o peso corporal, independentemente do indivíduo ser obeso ou não. A vivência da insatisfação com o peso corporal, assim como os preconceitos existentes com relação à obesidade – e não a obesidade propriamente dita - é que levariam a uma redução do bem-estar subjetivo. Os dados da pesquisa sugerem que pessoas insatisfeitas com o peso corporal sentem-se inferiores socialmente, mas em nenhum momento provou que os obesos seriam de fato tratados de forma diferenciada. Isto indica que a insatisfação com o peso corporal – e não a obesidade propriamente dita – afetaria os indivíduos principalmente no aspecto emocional.
Os resultados da pesquisa permitem verificar a freqüência e a intensidade com que a insatisfação com o peso corporal leva a uma redução do bem-estar subjetivo. A escolha da metodologia aplicada, por motivos didáticos, não permitiu que algumas variáveis (como por exemplo sexo, idade e peso corporal dos entrevistados) fossem abordadas, assunto para estudos posteriores.
Este estudo não esgota a complexa problemática do peso corporal que instalou-se como epidemia no seio da sociedade contemporânea. Os dados foram colhidos para o conhecimento da vivência da insatisfação com o peso corporal. Novos dados da questão devem ser investigados e aprofundados.
Como contribuição para trabalhos posteriores, além da inclusão das variáveis acima mencionadas, entrevistas com outro enfoque devem ser feitas, para investigar vivências e relatos relevantes para o tema.
Não se pode esperar somente que um movimento de mudança no sistema de valores da sociedade permita que pessoas insatisfeitas com o peso corporal possam sentir-se plenamente felizes. Estas pessoas devem aprender uma forma de atuar no mundo que possibilite, a despeito do seu peso e forma corporal, conquistar um espaço de valor na sociedade. É possível aprender novas formas de lidar com o meio ambiente. Assim, o conhecimento desta problemática deve ser utilizado para a elaboração de propostas terapêuticas. A investigação de estratégias para ajudar os indivíduos insatisfeitos com o peso corporal é um importante convite aos profissionais de saúde.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Cash, T. F. e Henry, P. E.. Women’s Body Images: The Results of a National Survey in the U.S.A. Sex Roles, 1995 (Jul), 33(1-2), 19-28.
Cogan, J. C., Bhalla, S. K., Sefa-Dedeh, A. E Rothblum, E. D.: A comparison study of united states and african students on perceptions of obesity and thinness. Journal of Cross-Cultural Psychology, 1996, 27(1), 98-113.
Csikszentmihalyi, M. A Psicologia da Felicidade. São Paulo, S.P.: Saraiva, 1992.
Diener, E. . Subjetive Well-Being. Psychological Bulletin. 1984, 95. 542-575.
Diener, E. e Diener, M. Cross-Cultural Correlates of Life Satisfaction and Self-Esteem. Journal of Personality and Social Psychology,1995, 68(4), 653-663.
Diener, E.; Wolsic, B.; Fujita, F. Physical Attractiveness and Subjetive Well-Being. Journal of Personality and Social Psychology, 1995(Jul), 69(1), 120-129.
Diener, E. e Fujita, F. Resources, Personal Strivings, and Subjetive Well-Being: A Nomothetic and Idiographic Approach. Journal of Personality and Social Psychology, 1995, 68(5), 926-935.
Garner, D. M. e Garfinkel, P. E. Handbook of Psychotherapy for Anorexia Nervosa and Bulimia. N. York e London: The Guilford Press, 1985.
LUCIANA MELLO DE QUEIRÓS MATTOSO
RESUMO
O bem-estar subjetivo (BES) e a satisfação com o peso corporal (SPC) vêm tornando-se dois importantes objetos de pesquisa dentro da psicologia atual. Há fortes indícios apontando para a existência de uma estreita ligação entre ambos, sendo uma avaliação positiva do peso corporal uma forte variável para a experiência do BES.
O objetivo do presente trabalho é ser um estudo exploratório visando examinar as múltiplas variáveis interligadas com a avaliação, satisfação e importância dada ao peso corporal, o que faz com que esta questão torne-se tão importante para o BES.
Para atingir o objetivo do estudo, 60 participantes responderam a um questionário com 28 frases incompletas acerca da problemática do peso corporal para o indivíduo e como este acredita que a mesma seja vivenciada por outras pessoas.Conclui-se pelos dados levantados que existem muitos preconceitos relacionados ao peso corporal, e que a experiência da insatisfação com o peso corporal está associada a emoções negativas, redução da auto-estima, prejuízos na vida social, amorosa e sexual (itens importantes para o BES). A maioria dos participantes (80%) acredita que pessoas insatisfeitas com o peso corporal sentem-se piores emocionalmente. Adicionalmente, pode-se perceber que há uma diferença na percepção das mulheres e dos homens obesos, principalmente no que diz respeito a itens direta ou indiretamente relacionados ao BES, tais como emoções negativas e prejuízos na vida social, que seriam maiores em mulheres obesas. Observou-se muitas crenças distorcidas relacionadas com o peso corporal, suas causas (e.g., 31% acreditam que a obesidade é resultado de descontrole alimentar e 34% atribuem à dificuldades emocionais), conseqüências (para 55% dos participantes afetaria a vida de uma maneira geral) e métodos buscados para a perda de peso (65% buscam dietas, principalmente com métodos radicais). Do grupo de participantes, 75,54% das mulheres gostaria de perder peso, enquanto que 39,99% dos homens gostaria do mesmo.
I- INTRODUÇÃO
A análise proposta avalia a criação e imposição social de um padrão estético, ou seja, um princípio de “boa forma”- observado claramente na mídia e outros veículos de comunicação- como objetivo a ser alcançado, e, na impossibilidade de alcançá-lo, na busca por alternativas que sustentem essa busca.
É nesta medida que comportamentos de busca de um peso corporal “aceitável” são identificados, como, ainda, preconceitos, críticas e auto-críticas. Assim, a busca por um corpo perfeito – ou pelo que se elegeu como corpo perfeito – é o alvo final de uma batalha. Dietas, exercícios praticados à exaustão, produtos e aparelhos para reformular a silhueta e sentimentos positivos e negativos foram constatados por este estudo, na intenção de recolher dados para corroborar o comprometimento do bem-estar subjetivo, fundamental para a saúde afetiva e emocional das pessoas.
Os distúrbios da imagem corporal (e.g., anorexia e bulimia nervosa), reflexos da imposição cultural e massificante pelos meios de comunicação em busca de um corpo tido como garantia de sucesso sexual e pessoal, são enquadrados na pesquisa, de modo a ratificar a urgência por um questionamento de tais valores contemporâneos.
A relação sucesso pessoal versus forma física ainda é extremamente forte no imaginário, e os estudos indicam que os indivíduos sentem-se bem quando estão em paz com o espelho e a opinião alheia. Entretanto, neste trabalho questiona-se as formas de avaliação pessoal no quesito “forma física” tendo em vista a complexidade da percepção humana, e, principalmente, de sua avaliação do que é percebido.
Para o ramo da psicologia, discutir o que torna as pessoas vulneráveis socialmente só faz contribuir para uma descoberta do outro por si mesmo, para o engrandecimento pessoal e para a busca da felicidade. Este trabalho pretende somar à discussão sobre o BES a influência da estética corporal neste conceito, sua aplicação prática e o retrato do pensamento comum na relação corpo/mente.
1- FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA:
BEM-ESTAR SUBJETIVO E SATISFAÇÃO COM O PESO CORPORAL:
Segundo Diener (1984), na literatura referente ao bem-estar subjetivo está incluída a felicidade, a satisfação com a vida e a preponderância de sentimentos positivos. Ainda segundo o autor, as definições encontradas acerca do bem-estar subjetivo podem ser agrupadas em três categorias: na primeira, o bem-estar é definido a partir de condições externas; na segunda, como auto-avaliação da vida em termos positivos; e na terceira como freqüente preponderância de sentimentos positivos sobre sentimentos negativos.
Independentemente da abordagem do BES, este relaciona-se com vários domínios da vida do indivíduo (família, amigos, trabalho, finanças, comunidade). Ou seja, o BES está relacionado com a satisfação em áreas importantes da vida das pessoas.
Há uma forte relação entre a satisfação consigo mesmo e o BES (Diener, 1984), assim como a elevada auto-estima é um dos mais fortes precursores do BES ( Diener e Diener, 1995).
Diener e Fujita (1995) mostram estudos que sugerem ser importante para o BES questões como dinheiro e habilidades sociais (variando de acordo com as metas do indivíduo). Para os autores, algumas variáveis também são influenciadas pelos benefícios proporcionados ao sujeito como, por exemplo, o sujeito fisicamente mais atraente pode ter mais amigos, mais relacionamentos amorosos, ajudar no emprego e sentir-se melhor consigo.
A felicidade, que é vista como uma das subdimensões do bem-estar subjetivo, merece aqui um lugar de destaque para a compreensão da importância da SPC para a experiência do BES.
Com base nos estudos de Csikszentmihalyi (1992), a felicidade dependeria muito mais dos aspectos subjetivos do indivíduo do que os acontecimentos propriamente ditos. Para o autor, a felicidade seria uma disposição para experimentar de forma mais positiva os eventos da vida diária. Por outro lado, experimenta-se a felicidade quando as pessoas atingem uma meta ou um objetivo.
Segundo o autor, em nossa sociedade há uma tendência a um estado crônico de insatisfação e as realizações são sempre seguidas do estabelecimento de novas necessidades e desejos. Este seria um dos principais obstáculos para a felicidade. A felicidade estaria muito mais centrada no modo como se filtra e interpreta as experiências que na ocorrência de acontecimentos positivos ou negativos: “O problema surge quando as pessoas se concentram tanto naquilo que desejam alcançar que deixam de obter prazer no presente.” (Csikszentmihalyi, 1992, p.25). Um forte obstáculo para a felicidade seria a criação, por parte dos indivíduos, de metas ou intenções de vida que se encontrem impedidas ou fortemente dificultadas por impossibilidades ou barreiras na realidade ou no mundo ao seu redor. As sucessivas impossibilidades de realização dos planos de vida tenderiam a enfraquecer os indivíduos, fazendo com que não buscassem novas metas e objetivos (Csikszentmihalyi, 1992).
Se o bem-estar está associado a uma tendência a ver e avaliar positivamente a si e aos eventos externos, a insatisfação com o peso corporal poderia ser vista como uma forma negativista e depreciadora de auto-avaliação. Do mesmo modo, quando observa-se que o excesso de peso corporal (real ou imaginado pelo indivíduo) realmente influencia na sociabilidade, na auto-estima e na avaliação de sua capacidade e habilidade pessoal (atributos estes associados à felicidade), a satisfação com o peso corporal será um agente preponderante para o bem-estar subjetivo.
O número de sujeitos insatisfeitos com o peso é bem superior ao número de obesos (e.g., Cash e Hanry, 1995). Isto acontece uma vez que a insatisfação com o peso é avaliada pela diferença entre o peso no qual o sujeito se avalia e aquele que ele considera o ideal. Desta forma, a satisfação com o peso corporal não depende apenas do dado objetivo da forma corporal do indivíduo, mas também envolve auto-avaliação emocional e cognitiva, assim como valorização e idealização de corpos magros.
Diener, Wolsic e Fujita (1995) estudaram a relação entre atratividade física e o bem-estar subjetivo. Os autores mostram a importância dada à atratividade na auto-avaliação e aceitação social. O estudo foi dividido em duas etapas, sendo que na primeira os sujeitos eram gravados em vídeo-tape e avaliados por outras pessoas no que diz respeito à atratividade física. Houve uma correlação entre atratividade física e bem-estar subjetivo. Porém, na segunda fase, quando elementos que aumentam a atratividade (ex. cabelo, roupa e jóias) foram suprimidos, sendo avaliada apenas a atratividade natural dos indivíduos, a correlação com o bem-estar diminuiu. Tais resultados sugerem que as pessoas mais felizes e com maior bem-estar subjetivo esforçam-se mais para aumentar sua atratividade física. O estudo revelou ainda que a auto-percepção de atratividade física está relacionada tanto com a atratividade física objetiva quanto com o bem-estar subjetivo. O peso corporal pode ser visto atualmente como um atributo muito importante para a atratividade física e, embora haja dificuldade para o emagrecimento, esta é uma variável modificável pelo indivíduo, e não um item de atratividade natural. Como os itens de atratividade física natural do indivíduo têm menor importância do que aqueles dependentes da ação da pessoa, o peso corpóreo pode ser visto como dependente da ação do indivíduo e, portanto, mais fortemente relacionado com o BES.
MÍDIA E PESO CORPORAL:
É notório o poder da mídia como reflexo e propagadoras do momento histórico e cultural, sendo ao mesmo tempo um reflexo do social e uma geradora de opiniões e atitudes. A todo momento a mídia diz o que comprar, o que vestir e como agir. Esse modelo de consumo influencia a avaliação e a importância da forma corporal na vida das pessoas. A valorização do “ser belo” e do peso corporal é ressaltada por um movimento crescente refletido na mídia.
Atualmente, a busca por formas corporais muito magras encontra-se em um movimento crescente (Garner e Garfinkel, 1985). Formas corporais acima do peso já foram vistas como sinônimo de saúde, riqueza e abundância (possibilidade econômica de alimentar-se bem). No entanto, hoje são vistas como desleixo e feiúra (Cogan, Bhalla, Sefa-Dedeh e Rothblum, 1996).
Observa-se um grande volume de revistas dedicadas ao assunto, vendidas e consumidas no cotidiano. Na televisão as atrizes são sempre belas e magras, ou sofrem se não o são. A maioria das protagonistas dos programas que mostra mulheres bonitas e bem-sucedidas é bem magra. A mídia mostra a magreza associada ao sucesso e à felicidade, interferindo, assim, na percepção de beleza, principalmente feminina. Nas passarelas desfilam corpos esbeltos e livres de gordura. A mensagem imposta de forma indireta (ou, muitas vezes, direta) é: seja magro e tenha um corpo em forma pois é algo fundamental.
As pessoas que estão fora das formas corporais determinadas pela mídia são marginalizadas, vistas como inferiores, discriminadas e, até mesmo, ridicularizadas. Porém, é possível perceber que este modelo de beleza e felicidade está muito distante da realidade da maioria das pessoas (devido ao grau de magreza e medidas corporais estabelecidas), provocando um forte sentimento de insatisfação e baixa auto-estima. Segundo Garner e Garfinkel (1985), nas duas últimas décadas a preocupação com relação ao peso corporal, principalmente das mulheres, vem aumentando diante deste panorama.
Além desta valorização do corpo magro, segundo Garner e Garfinkel (1985), ao longo dos últimos 25 anos houve um “emagrecimento” progressivo do modelo de beleza. As formas corporais valorizadas atualmente são muito mais magras do que há décadas atrás. Tal emagrecimento do padrão de beleza vem criando uma disparidade entre os padrões ideais e os padrões reais, uma vez que a maioria das mulheres não consegue atingir tal padrão imposto pelas indústrias de moda e propaganda. O modelo de magreza visto nas passarelas, na televisão e nas revistas não condiz com as formas corporais naturais da maioria das pessoas. As modelos costumam ter uma constituição já naturalmente muito magra ou dedicam suas vidas em academias e mesas de tratamentos estéticos para atingir tal forma.
Pode-se observar alguns movimentos sociais que favoreceram ao surgimento deste modelo de corpo “em forma”: primeiramente, a divulgação pela mídia das modelos de passarela- que precisavam ser magras para dar um melhor “caimento” para as roupas e cujas formas corporais justamente não iriam chamar a atenção, dando destaque às roupas, como verdadeiros “cabides humanos”- que passaram a sinônimo de beleza e elegância; paralelemente a isto, na década de 70 surgiu nos EUA a cultura fitness (surgimento de academias de ginástica, suplementos alimentares e venda de aparelhos de ginástica); da mesma forma, avanços na medicina comprovaram a associação entre várias patologias e o excesso de gordura (porém a obesidade que a medicina considera danosa está bem acima do padrão da moda); por outro lado, houve um grande aumento do índice de obesidade, principalmente entre os americanos, provocando um movimento de divulgação de dietas, métodos e produtos para emagrecer. Estes movimentos favoreceram a valorização da magreza, porém com padrões extremamente rígidos.
Muitas mulheres estão pagando preços altíssimos para atingir este modelo de beleza. Uma das conseqüências deste movimento é o aumento do número de mulheres apresentando um quadro de transtornos alimentares (principalmente anorexia e bulimia nervosa) que estão associados à busca excessiva de uma forma corporal muito magra (Garner e Garfinkel, 1985).
A identificação com o modelo da mídia e a dificuldade em atingi-lo têm colaborado para uma crescente insatisfação e insegurança feminina em relação à seus corpos . Até mesmo mulheres magras rotulam-se como obesas e muitas mulheres que estão estatisticamente abaixo do peso não reconhecem este fato (Garner e Garfinkel, 1985).
Pode-se notar o surgimento de uma verdadeira “epidemia diet”. A todo momento os indivíduos são bombardeados com propagandas de dietas milagrosas, remédios, alimentos “diet” e “light”, tratamentos para eliminação da gordura (às vezes até mesmo cirúrgicos), ginásticas etc.. A indústria americana de dieta rende aproximadamente 33 milhões de dólares por ano (Cogan et al, 1996). Há um verdadeiro culto à forma física livre de gordura. Celulite? Nem pensar! Isso provoca em boa parte das pessoas, principalmente mulheres, uma “fobia de gordura”. E como a gordura faz parte naturalmente do corpo das pessoas, isto acaba gerando uma auto-desvalorização de seus próprios corpos.
Busca-se uma perfeição física inatingível. Por mais que as pessoas dediquem horas em academias de ginástica, recorram a cirurgias plásticas, façam dietas extremamente restritivas, não atingirão tal “perfeição”. Porém, a mídia divulga fórmulas milagrosas e lucra com isso.
Garner e Garfinkel (1985) destacam o preconceito social contra a obesidade, evidências de uma diminuição significativa de oportunidades educacionais, empregos, promoção de trabalho e habitação em função do peso corporal. Os autores ainda documentam que a obesidade é vista como associada à estupidez, sujeira, preguiça, feiúra, tristeza e outros rótulos negativos. Um dado curioso desta pesquisa é o fato de que tais atributos negativos associados aos obesos são opiniões compartilhadas não só por pessoas magras, como também por indivíduos obesos.
INSATISFAÇÃO COM O PESO CORPORAL:
Cash e Henry (1995) constataram um aumento no nível de insatisfação corporal ao longo das últimas décadas. Cerca de 50% das mulheres de sua amostra apresentaram uma avaliação global negativa de sua aparência e preocupação em estar ou vir a estar acima do peso. O efeito da idade foi pequeno (maior entre 18 e 24 anos), porém com significante influência da raça e etnia, sendo melhor a auto-imagem nas afro-americanas do que nas hispânicas. Haveria uma significativa diferença entre homens e mulheres, sendo a auto-imagem muito mais desfavorável em mulheres.
Para os autores, a auto-imagem consiste em auto-percepção, cognição, afeto e comportamento no que diz respeito a atributos físicos. O estudo revela ainda que a auto-avaliação negativa da aparência entre mulheres de 18 e 70 anos aumentou de 30% encontrado na última década, para 48% no presente estudo.
II - OBJETIVOS
Este trabalho pretende estudar a satisfação com o peso corporal e sua influência no bem-estar subjetivo do indivíduo. Acredita-se que a satisfação com o peso corporal constitui uma importante variável no mundo moderno para a experiência do bem-estar subjetivo. Porém, tal influência dependerá de uma série de outros fatores, o que pretende-se investigar. Assim, este estudo tem como objetivo de levantar as variáveis associadas à problemática do peso corporal na atualidade que faz com que a mesma torne-se fundamental para o bem-estar subjetivo.
III- MÉTODO
1- PARTICIPANTES:
Por tratar-se de um estudo exploratório, optou-se por selecionar um grupo aleatório de sessenta (60) participantes, incluindo todas as idades, sexo, nível sócio-econômico e ocupação. Portanto, não foi utilizado nenhum critério de exclusão na seleção da amostra.
2- INSTRUMENTO:
De acordo com a teoria das representações sociais (Sá, 1996), há como um dos métodos eficazes de investigação a associação ou evocação livre, onde a partir de um elemento chave (podendo ser uma imagem, frases ou palavras) os participantes são solicitados a narrar ou escrever aquilo que vem a sua lembrança.
Assim, foi construído um questionário com 28 frases incompletas onde os participantes deveriam completá-las com o que viesse em sua lembrança. Todas as frases referem-se aos temas obesidade, peso corporal e bem-estar subjetivo (Anexo).
Constam do questionário dados pessoais para melhor definição da amostra, assim com uma breve instrução.
3- PROCEDIMENTO:
Os participantes foram abordados individualmente e solicitados a preencher o questionário. Nada foi dito a respeito do tema, apenas tratar-se de um estudo dentro do campo da psicologia. A todos foram dadas instruções adequadas, tais como as descritas no questionário, buscando-se enfatizá-las.
IV- RESULTADOS E CONCLUSÕES:
Cada frase incompleta foi analisada individualmente, buscando-se agrupar as respostas em grupos de conteúdos similares e com sua respectiva freqüência. Como houve mais de uma resposta para cada questão, a contagem das freqüências pode superar o número de participantes. Não houve a preocupação com a ordem das respostas, ou seja, qual foi colocada em primeiro lugar.
Constarão, ainda, da tabela as letras (P) para respostas positivas, (N) para respostas negativas e (NE) para respostas neutras ou indefinidas. Algumas questões não terão estas categorias pois suas respostas não podem ser divididas desta forma.
Obteve-se como principais resultados:
• Com freqüência as pessoas obesas (mais mulheres que homens) são consideradas mais infelizes e com mais dificuldades sociais. Tais resultados confirmam estudos anteriores sobre o preconceito em relação aos obesos e sua diferenciação sexual (e.g. Garner e Garfinkel, 1985 e Cogan et al, 1996).
• Para os entrevistados, o peso corporal influi decisivamente no modo positivo ou negativo de viver a vida. É por este motivo que o conceito de bem-estar subjetivo tem uma relação direta com a satisfação com o peso corporal.
• Não apenas o peso ou a forma corporal costuma gerar satisfação ou insatisfação, mas também a utilização de determinadas roupas ou a exposição a situações sociais específicas em função da forma corporal. Esse resultado mostra tanto a influência da indústria da moda com tamanhos e modelos que valorizam o corpo magro quanto a antecipação de um panorama (real ou imaginário) de preconceito social.
• Ao ver pessoas “em forma”, grande parte dos participantes logo sente desejo de ter corpo semelhante. Ou seja, corpo “em forma” é objeto de desejo. As pessoas “em forma” são admiradas.
• Ao sentir insatisfação com o peso corporal, a maioria dos participantes pensa logo em fazer dieta, muitas delas radicais. A incidência do comportamento de dieta realmente mostra-se elevada atualmente (e.g., Neumark-Sztainer et al, 1995 e Cogan et al, 1996).
• Os participantes acreditam que a obesidade é resultado de descontrole alimentar e emocional. Nenhum estudo encontrado relaciona a obesidade a tais fatores, o que indica a existência de um preconceito (Garner e Garfinkel, 1985).
• Os participantes acreditam que estar “acima do peso” afeta a vida das pessoas em vários aspectos, incluindo vida amorosa, sexual, social e emocional.
• Do grupo de participantes do sexo feminino, 75,54% gostariam de perder peso, enquanto o percentual masculino é de 39,99%. O resultado de estudos citados anteriormente indicam estatísticas similares, tanto no que diz respeito ao índice de desejo de perda de peso quanto à diferença entre homens e mulheres (e.g. Cash e Hanry, 1995; Neumark-Sztainer et al, 1995 e Thompson, 1990)
VI- CONSIDERAÇÕES FINAIS
“A vida é essencialmente um processo de adaptação às circunstâncias em que subsistimos. O segredo da saúde está no ajustamento às condições do mundo, que está permanentemente se modificando. O preço da dificuldade de adaptação está na doença.” (Jacob, 1995, p.270).
No presente estudo, percebe-se o processo de “ajustamento” aos padrões da contemporaneidade de valorização da estética e do corpo esbelto como marco de vitória. Porém, não somente o sentimento de desajustamento leva as pessoas à “doença” ou a uma redução do bem-estar subjetivo, como também à própria busca por tal ajustamento.
Antes de mais nada, é importante ficar bastante claro que não há aqui qualquer implicação de que pessoas obesas estejam necessariamente insatisfeitas com o peso corporal, ou ainda menos felizes. A variável estudada foi a insatisfação com o peso corporal, independentemente do indivíduo ser obeso ou não. A vivência da insatisfação com o peso corporal, assim como os preconceitos existentes com relação à obesidade – e não a obesidade propriamente dita - é que levariam a uma redução do bem-estar subjetivo. Os dados da pesquisa sugerem que pessoas insatisfeitas com o peso corporal sentem-se inferiores socialmente, mas em nenhum momento provou que os obesos seriam de fato tratados de forma diferenciada. Isto indica que a insatisfação com o peso corporal – e não a obesidade propriamente dita – afetaria os indivíduos principalmente no aspecto emocional.
Os resultados da pesquisa permitem verificar a freqüência e a intensidade com que a insatisfação com o peso corporal leva a uma redução do bem-estar subjetivo. A escolha da metodologia aplicada, por motivos didáticos, não permitiu que algumas variáveis (como por exemplo sexo, idade e peso corporal dos entrevistados) fossem abordadas, assunto para estudos posteriores.
Este estudo não esgota a complexa problemática do peso corporal que instalou-se como epidemia no seio da sociedade contemporânea. Os dados foram colhidos para o conhecimento da vivência da insatisfação com o peso corporal. Novos dados da questão devem ser investigados e aprofundados.
Como contribuição para trabalhos posteriores, além da inclusão das variáveis acima mencionadas, entrevistas com outro enfoque devem ser feitas, para investigar vivências e relatos relevantes para o tema.
Não se pode esperar somente que um movimento de mudança no sistema de valores da sociedade permita que pessoas insatisfeitas com o peso corporal possam sentir-se plenamente felizes. Estas pessoas devem aprender uma forma de atuar no mundo que possibilite, a despeito do seu peso e forma corporal, conquistar um espaço de valor na sociedade. É possível aprender novas formas de lidar com o meio ambiente. Assim, o conhecimento desta problemática deve ser utilizado para a elaboração de propostas terapêuticas. A investigação de estratégias para ajudar os indivíduos insatisfeitos com o peso corporal é um importante convite aos profissionais de saúde.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Cash, T. F. e Henry, P. E.. Women’s Body Images: The Results of a National Survey in the U.S.A. Sex Roles, 1995 (Jul), 33(1-2), 19-28.
Cogan, J. C., Bhalla, S. K., Sefa-Dedeh, A. E Rothblum, E. D.: A comparison study of united states and african students on perceptions of obesity and thinness. Journal of Cross-Cultural Psychology, 1996, 27(1), 98-113.
Csikszentmihalyi, M. A Psicologia da Felicidade. São Paulo, S.P.: Saraiva, 1992.
Diener, E. . Subjetive Well-Being. Psychological Bulletin. 1984, 95. 542-575.
Diener, E. e Diener, M. Cross-Cultural Correlates of Life Satisfaction and Self-Esteem. Journal of Personality and Social Psychology,1995, 68(4), 653-663.
Diener, E.; Wolsic, B.; Fujita, F. Physical Attractiveness and Subjetive Well-Being. Journal of Personality and Social Psychology, 1995(Jul), 69(1), 120-129.
Diener, E. e Fujita, F. Resources, Personal Strivings, and Subjetive Well-Being: A Nomothetic and Idiographic Approach. Journal of Personality and Social Psychology, 1995, 68(5), 926-935.
Garner, D. M. e Garfinkel, P. E. Handbook of Psychotherapy for Anorexia Nervosa and Bulimia. N. York e London: The Guilford Press, 1985.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
TRANSTORNO DO DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE
Quais são os sintomas de TDAH?
Fonte: ABDA: Associação Brasileira do Déficit de Atenção
http://www.tdah.org.br/
O TDAH se caracteriza por uma combinação de dois tipos de sintomas:
1)Desatenção
2) Hiperatividade-impulsividade
O TDAH na infância em geral se associa a dificuldades na escola e no relacionamento com demais crianças, pais e professores. As crianças são tidas como "avoadas", "vivendo no mundo da lua" e geralmente "estabanadas" e com "bicho carpinteiro" ou “ligados por um motor” (isto é, não param quietas por muito tempo). Os meninos tendem a ter mais sintomas de hiperatividade e impulsividade que as meninas, mas todos são desatentos. Crianças e adolescentes com TDAH podem apresentar mais problemas de comportamento, como por exemplo, dificuldades com regras e limites.
Em adultos, ocorrem problemas de desatenção para coisas do cotidiano e do trabalho, bem como com a memória (são muito esquecidos). São inquietos (parece que só relaxam dormindo), vivem mudando de uma coisa para outra e também são impulsivos ("colocam os carros na frente dos bois"). Eles têm dificuldade em avaliar seu próprio comportamento e quanto isto afeta os demais à sua volta. São freqüentemente considerados “egoístas”. Eles têm uma grande freqüência de outros problemas associados, tais como o uso de drogas e álcool, ansiedade e depressão.
Sintomas em crianças e adolescentes
As crianças com TDAH, em especial os meninos, são agitadas ou inquietas. Freqüentemente têm apelido de "bicho carpinteiro" ou coisa parecida. Na idade pré-escolar, estas crianças mostram-se agitadas, movendo-se sem parar pelo ambiente, mexendo em vários objetos como se estivessem “ligadas” por um motor. Mexem pés e mãos, não param quietas na cadeira, falam muito e constantemente pedem para sair de sala ou da mesa de jantar.
Elas têm dificuldades para manter atenção em atividades muito longas, repetitivas ou que não lhes sejam interessantes. Elas são facilmente distraídas por estímulos do ambiente externo, mas também se distraem com pensamentos "internos", isto é, vivem "voando". Nas provas, são visíveis os erros por distração (erram sinais, vírgulas, acentos, etc.). Como a atenção é imprescindível para o bom funcionamento da memória, elas em geral são tidas como "esquecidas": esquecem recados ou material escolar, aquilo que estudaram na véspera da prova, etc. (o "esquecimento" é uma das principais queixas dos pais). Quando elas se dedicam a fazer algo estimulante ou do seu interesse, conseguem permanecer mais tranqüilas. Isto ocorre porque os centros de prazer no cérebro são ativados e conseguem dar um "reforço" no centro da atenção que é ligado a ele, passando a funcionar em níveis normais. O fato de uma criança conseguir ficar concentrada em alguma atividade não exclui o diagnóstico de TDAH. É claro que não fazemos coisas interessantes ou estimulantes desde a hora que acordamos até a hora em que vamos dormir: os portadores de TDAH vão ter muitas dificuldades em manter a atenção em um monte de coisas.
Elas também tendem a ser impulsivas (não esperam a vez, não lêem a pergunta até o final e já respondem, interrompem os outros, agem antes de pensar). Freqüentemente também apresentam dificuldades em se organizar e planejar aquilo que querem ou precisam fazer.
Seu desempenho sempre parece inferior ao esperado para a sua capacidade intelectual. O TDAH não se associa necessariamente a dificuldades na vida escolar, embora esta seja uma queixa freqüente de pais e professores. É mais comum que os problemas na escola sejam de comportamento que de rendimento (notas).
Um aspecto importante: as meninas têm menos sintomas de hiperatividade-impulsividade que os meninos (embora sejam igualmente desatentas), o que fez com que se acreditasse que o TDAH só ocorresse no sexo masculino. Como as meninas não incomodam tanto, eram menos encaminhadas para diagnóstico e tratamento médicos.
Sintomas em adultos
A existência da forma adulta do TDAH foi oficialmente reconhecida apenas em 1980 pela Associação Psiquiátrica Americana. E, desde então inúmeros estudos têm demonstrado a presença do TDAH em adultos. Passou-se muito tempo até que ela fosse amplamente divulgada no meio médico e ainda hoje, observa-se que este diagnóstico é apenas raramente realizado, persistindo o estereótipo equivocado de TDAH: um transtorno acometendo meninos hiperativos que têm mau desempenho escolar. Muitos médicos desconhecem a existência do TDAH em adultos e quando são procurados por estes pacientes, tendem a tratá-los como se tivessem outros problemas (de personalidade, por exemplo). Quando existe realmente um outro problema associado (depressão, ansiedade ou drogas), o médico só diagnostica este último e “deixa passar” o TDAH.
Atualmente acredita-se que em torno de 60% das crianças com TDAH ingressarão na vida adulta com alguns dos sintomas (tanto de desatenção quanto de hiperatividade-impulsividade) porém em menor número do que apresentavam quando eram crianças ou adolescentes.
Para se fazer o diagnóstico de TDAH em adultos é obrigatório demonstrar que o transtorno esteve presente desde criança. Isto pode ser difícil em algumas situações, porque o indivíduo pode não se lembrar de sua infância e também os pais podem ser falecidos ou estar bastante idosos para relatar ao médico. Mas em geral o indivíduo lembra de um apelido (tal como “bicho carpinteiro”, etc.) que denuncia os sintomas de hiperatividade-impulsividade e lembra de ser muito “avoado”, com queixas freqüentes de professores e pais.
Os adultos com TDAH costumam ter dificuldade de organizar e planejar suas atividades do dia a dia. Por exemplo, pode ser difícil para uma pessoa com TDAH determinar o que é mais importante dentre muitas coisas que tem para fazer, escolher o que vai fazer primeiro e o que pode deixar para depois. Em conseqüência disso, quem TDAH fica muito “estressado” quando se vê sobrecarregado (e é muito comum que se sobrecarregue com freqüência, uma vez que assume vários compromissos diferentes), pois não sabe por onde começar e tem medo de não conseguir dar conta de tudo. Os indivíduos com TDAH acabam deixando trabalhos pela metade, interrompem no meio o que estão fazendo e começam outra coisa, só voltando ao trabalho anterior bem mais tarde do que o pretendido ou então se esquecendo dele.
O portador de TDAH fica com dificuldade para realizar sozinho suas tarefas, principalmente quando são muitas, e o tempo todo precisa ser lembrado pelos outros sobre o que tem para fazer. Isso tudo pode causar problemas na faculdade, no trabalho ou nos relacionamentos com outras pessoas. A persistência nas tarefas também pode ser difícil para o portador de TDAH, que freqüentemente “deixa as coisas pela metade”.
Fonte: ABDA: Associação Brasileira do Déficit de Atenção
http://www.tdah.org.br/
O TDAH se caracteriza por uma combinação de dois tipos de sintomas:
1)Desatenção
2) Hiperatividade-impulsividade
O TDAH na infância em geral se associa a dificuldades na escola e no relacionamento com demais crianças, pais e professores. As crianças são tidas como "avoadas", "vivendo no mundo da lua" e geralmente "estabanadas" e com "bicho carpinteiro" ou “ligados por um motor” (isto é, não param quietas por muito tempo). Os meninos tendem a ter mais sintomas de hiperatividade e impulsividade que as meninas, mas todos são desatentos. Crianças e adolescentes com TDAH podem apresentar mais problemas de comportamento, como por exemplo, dificuldades com regras e limites.
Em adultos, ocorrem problemas de desatenção para coisas do cotidiano e do trabalho, bem como com a memória (são muito esquecidos). São inquietos (parece que só relaxam dormindo), vivem mudando de uma coisa para outra e também são impulsivos ("colocam os carros na frente dos bois"). Eles têm dificuldade em avaliar seu próprio comportamento e quanto isto afeta os demais à sua volta. São freqüentemente considerados “egoístas”. Eles têm uma grande freqüência de outros problemas associados, tais como o uso de drogas e álcool, ansiedade e depressão.
Sintomas em crianças e adolescentes
As crianças com TDAH, em especial os meninos, são agitadas ou inquietas. Freqüentemente têm apelido de "bicho carpinteiro" ou coisa parecida. Na idade pré-escolar, estas crianças mostram-se agitadas, movendo-se sem parar pelo ambiente, mexendo em vários objetos como se estivessem “ligadas” por um motor. Mexem pés e mãos, não param quietas na cadeira, falam muito e constantemente pedem para sair de sala ou da mesa de jantar.
Elas têm dificuldades para manter atenção em atividades muito longas, repetitivas ou que não lhes sejam interessantes. Elas são facilmente distraídas por estímulos do ambiente externo, mas também se distraem com pensamentos "internos", isto é, vivem "voando". Nas provas, são visíveis os erros por distração (erram sinais, vírgulas, acentos, etc.). Como a atenção é imprescindível para o bom funcionamento da memória, elas em geral são tidas como "esquecidas": esquecem recados ou material escolar, aquilo que estudaram na véspera da prova, etc. (o "esquecimento" é uma das principais queixas dos pais). Quando elas se dedicam a fazer algo estimulante ou do seu interesse, conseguem permanecer mais tranqüilas. Isto ocorre porque os centros de prazer no cérebro são ativados e conseguem dar um "reforço" no centro da atenção que é ligado a ele, passando a funcionar em níveis normais. O fato de uma criança conseguir ficar concentrada em alguma atividade não exclui o diagnóstico de TDAH. É claro que não fazemos coisas interessantes ou estimulantes desde a hora que acordamos até a hora em que vamos dormir: os portadores de TDAH vão ter muitas dificuldades em manter a atenção em um monte de coisas.
Elas também tendem a ser impulsivas (não esperam a vez, não lêem a pergunta até o final e já respondem, interrompem os outros, agem antes de pensar). Freqüentemente também apresentam dificuldades em se organizar e planejar aquilo que querem ou precisam fazer.
Seu desempenho sempre parece inferior ao esperado para a sua capacidade intelectual. O TDAH não se associa necessariamente a dificuldades na vida escolar, embora esta seja uma queixa freqüente de pais e professores. É mais comum que os problemas na escola sejam de comportamento que de rendimento (notas).
Um aspecto importante: as meninas têm menos sintomas de hiperatividade-impulsividade que os meninos (embora sejam igualmente desatentas), o que fez com que se acreditasse que o TDAH só ocorresse no sexo masculino. Como as meninas não incomodam tanto, eram menos encaminhadas para diagnóstico e tratamento médicos.
Sintomas em adultos
A existência da forma adulta do TDAH foi oficialmente reconhecida apenas em 1980 pela Associação Psiquiátrica Americana. E, desde então inúmeros estudos têm demonstrado a presença do TDAH em adultos. Passou-se muito tempo até que ela fosse amplamente divulgada no meio médico e ainda hoje, observa-se que este diagnóstico é apenas raramente realizado, persistindo o estereótipo equivocado de TDAH: um transtorno acometendo meninos hiperativos que têm mau desempenho escolar. Muitos médicos desconhecem a existência do TDAH em adultos e quando são procurados por estes pacientes, tendem a tratá-los como se tivessem outros problemas (de personalidade, por exemplo). Quando existe realmente um outro problema associado (depressão, ansiedade ou drogas), o médico só diagnostica este último e “deixa passar” o TDAH.
Atualmente acredita-se que em torno de 60% das crianças com TDAH ingressarão na vida adulta com alguns dos sintomas (tanto de desatenção quanto de hiperatividade-impulsividade) porém em menor número do que apresentavam quando eram crianças ou adolescentes.
Para se fazer o diagnóstico de TDAH em adultos é obrigatório demonstrar que o transtorno esteve presente desde criança. Isto pode ser difícil em algumas situações, porque o indivíduo pode não se lembrar de sua infância e também os pais podem ser falecidos ou estar bastante idosos para relatar ao médico. Mas em geral o indivíduo lembra de um apelido (tal como “bicho carpinteiro”, etc.) que denuncia os sintomas de hiperatividade-impulsividade e lembra de ser muito “avoado”, com queixas freqüentes de professores e pais.
Os adultos com TDAH costumam ter dificuldade de organizar e planejar suas atividades do dia a dia. Por exemplo, pode ser difícil para uma pessoa com TDAH determinar o que é mais importante dentre muitas coisas que tem para fazer, escolher o que vai fazer primeiro e o que pode deixar para depois. Em conseqüência disso, quem TDAH fica muito “estressado” quando se vê sobrecarregado (e é muito comum que se sobrecarregue com freqüência, uma vez que assume vários compromissos diferentes), pois não sabe por onde começar e tem medo de não conseguir dar conta de tudo. Os indivíduos com TDAH acabam deixando trabalhos pela metade, interrompem no meio o que estão fazendo e começam outra coisa, só voltando ao trabalho anterior bem mais tarde do que o pretendido ou então se esquecendo dele.
O portador de TDAH fica com dificuldade para realizar sozinho suas tarefas, principalmente quando são muitas, e o tempo todo precisa ser lembrado pelos outros sobre o que tem para fazer. Isso tudo pode causar problemas na faculdade, no trabalho ou nos relacionamentos com outras pessoas. A persistência nas tarefas também pode ser difícil para o portador de TDAH, que freqüentemente “deixa as coisas pela metade”.
TDAH e Transtorno do uso de substância
TDAH e Transtorno do uso de substância
Luciana Mattoso
O TDAH inicialmente era visto como um transtorno característico de crianças, em especial meninos e cujo desaparecimento dos sintomas acorreria no início da vida adulta. Porém, os estudos desenvolvidos na última década mostraram que o TDAH trata-se de uma síndrome que acomete tanto meninos quanto meninas e em muitos casos estende-se para a vida adulta (Brown, 2000). A crença desta remissão na vida adulta pode ser explicada pelo desenvolvimento por parte do paciente de uma série de estratégias que permitiriam a ele reduzir os prejuízos dos sintomas. Porém, uma análise mais profunda revela enumeras dificuldades sociais, familiares e instabilidade em vários domínios na vida destes indivíduos. Outra possível explicação para esta crença seria a dificuldade por parte dos portadores de TDAH em reconhecer seus próprios sintomas.
Os recentes estudos permitiram uma melhor compreensão não só acerca dos critérios para o diagnóstico do TDAH, mas um novo paradigma com relação ao curso e impacto dele na vida dos pacientes e das pessoas que o cercam. O TDAH não é um transtorno que acomete o paciente apenas cognitivamente, mas também envolve muitos aspectos comportamentais e afetivos/emocionais. Pacientes com TDAH costumam ter inúmeros problemas de baixa auto-estima, ter baixo desempenho acadêmico, dificuldades sociais, familiares e financeiras. Assim, o diagnóstico e tratamento precoce não visariam apenas o controle dos sintomas, mas principalmente evitar o impacto deles na vida do paciente.
Embora vários críticos aleguem haver um hiper-diagnóstico e uma hiper-medicação, os estudos recentes revelam o contrário, haveria uma grande dificuldade por parte dos profissionais em conhecerem e reconhecerem o TDAH, além de uma grande resistência ao uso de medicação. (Brown, 2000).
A prevalência do TDAH segundo o DSM IV é de 5 à 13% em crianças em idade escolar, embora haja uma grande discordância entre os autores. O TDAH é considerado uma síndrome associada a uma vulnerabilidade genética em interação com o meio-ambiente. (Golfeto et al, 2003).
Outro aspecto atualmente muito estudado e extremamente importante de ser levado em consideração ao se estudar o TDAH diz respeito a grande incidência de co-morbidades encontradas no TDAH. As principais co-morbidades encontrados com o TDAH são: comportamentos disruptivos- transtorno opositivo-desafiador e Transtorno da conduta (35 à 65%); depressão (15 à 20%); transtornos de ansiedade (25%); transtorno de aprendizagem (10-25%) e abuso de drogas (9-40%).(Brown, 2000) Tal incidência de co-morbidade aponta para a importância do estudo e do tratamento do TDAH.
A co-morbidade mais comum encontrada no TDAH são problemas relacionados com comportamento disruptivo, agressividade e delinqüência. A alta prevalência de transtorno opositivo-desafiador (TOD) e transtorno da conduta (TC) faz com que o tema mereça uma análise mais profunda. Embora o TOD e o TC sejam classificados separadamente, estes costumam ser vistos com progressão um do outro. Questiona-se, ainda, devido a esta prevalência se o TDAH, TOD e TC não seriam diferentes condições psiquiátricas ou aspectos diferenciados do mesmo fenômeno (Newcorn et al, 2000).
Em estudo recente (Swensen et al) encontrou-se a seguinte prevalência de problemas psiquiátricos em pacientes com TDAH comparado com grupo controle: 18 vs 4% de depressão; 6 vs 1% transtornos da infância, 6 vs 2% de transtorno de ajustamento, 6 vs 1% de TOD; 5 vs 0% de psicose, 4 vs 1% de TC, 2 vs 1% de abuso de substância e 1 vs 1% de ansiedade. O mesmo estudo estendeu-se aos pais de pacientes com TDAH e pais controles: 9 vs 4% de depressão, 1 vs 0% de transtorno da infância; 4 vs 2% de de outros transtornos mentais; 2 vs 1% de transtorno de ajustamento; 0 vs 0% de TOD; 1 vs 1% de psicose; 0 vs 0% de TC; 2 vs 1% de abuso de substancia e 1vs 1% de ansiedade. No mesmo estudo constatou-se que os pacientes teriam maior índice de envolvimento em acidentes e recorreriam 2.6 vezes mais a cuidados médicos (principalmente devido a abuso de substância, acidentes automobilísticos, ingestão de veneno e fraturas. Assim, pode-se perceber não só os prejuízos dos sintomas do TDAH, mas também condições secundárias importantes e o impacto nos demais membros da família.
A incidência do transtorno do uso de substância (TUS) vem atualmente destacando-se como preocupação em pacientes com TDAH, porém o tema é ainda muito controverso. Existem duas vertentes no que diz respeito ao uso de substancia em pacientes com TDAH: alguns autores acreditam que o uso de substância estaria diretamente relacionado com o TDAH, porém estudos mais recentes apontam para uma relação indireta, ou seja, o TUS estaria relacionado com o TC e seria apenas agravado pelo TDAH, como veremos a seguir.
Segundo Wilens et al (2000), 6 à 9% das crianças e adolescentes com TDAH teriam também TUS (incluindo abuso de álcool e drogas e dependência) e adultos 10 à 30%. O autor aponta a redução de julgamento, agressividade e a impulsividade como fatores de alto-risco para o envolvimento com drogas, que poderia ser ainda uma forma de auto-medicação. Biederman et al (1995) encontraram um índice de 52% de TUS em pacientes com TDAH versus 27% no grupo controle. Por outro lado, 60% dos pacientes com TC possuem altos índices de abuso de substância, incluindo álcool, maconha e outros (Pliszka et al, 2000).
O TUS também costuma ser visto como associado ao TDAH devido a desmoralização que ocorre com os pacientes (Wilens et al 2000) ou devido a alianças sociais com as quais esses indivíduos acabam se relacionando (Marshal et al, 2003).
Flory et al, 2003 defendem que o TDAH (independentemente do co-morbidade) estaria associado ao TUS e que quanto maior os sintomas de TDAH, maior o nível de TUS. Da mesma forma, os pacientes com TDAH medicados teriam menos incidência de TUS (Wilens et al 2000 e Biederman, 2003).A incidência de pacientes que preenchem os critérios para TDAH entre os pacientes que procuram tratamento para TUS é de 50% (Levin et al, 1995 e Honer et al, 1997). Schubiner et al (2000) encontraram em pacientes com TUS uma prevalência de 28% em homens e 19% em mulheres e 1/3 dos pacientes com TDAH também preenchiam critério para TC.
Por outro lado, muitos autores defendem que o TUS estaria associado ao TC e transtorno do humor (Rohde et all, 1996; Chicoat et al, 1999; Whitmore et al, 1997; e Brook et al, 1998) Assim, a associação com o TDAH daria-se de maneira indireta.
Porém, os principais estudos apontam para o fato do TDAH afetar drasticamente o curso do TUS. Pacientes com TDAH teriam um início mais precoce do uso das drogas, um curso mais rápido e menos resposta ao tratamento (Wileners et al, 1998; Chilcoat et al Breslau, 1999; Biederman et al, 1997; e Horner et al, 1997). Este início precoce ocorreria independentemente de co-morbidade (Wilens et al, 1997), haveria o uso de substancias mais pesadas (Horner et al, 1997) e contribuiria para a gravidade e persistência dos sintomas (Riggs et al, 1996).
Os estudos apontam ainda para uma diferença de gênero, as mulheres com TDAH correriam mais riscos de desenvolverem TUS do que os homens (Disney et al 1999; Biederman et al, 2002) e estaria mais associado com a ansiedade (Rohde et al, 1996) enquanto que nos homens estaria mais associado ao TC (Milberger et al, 1997). O uso de tabaco estaria da mesma forma associado principalmente com o TC, porém os pacientes com TDAH teriam um início mais precoce, com mais freqüência tornariam-se dependentes e em um período mais curto e teriam mais dificuldade em deixar a dependência e com mais freqüência passariam a utilizar outras drogas (Milberger et al, 1997; Dierker et al, 2001; e Farone et all, 1997).
Andréa et all (2003) demonstra um alto índice de uso de substância também entre os pais de pacientes com TDAH e TUS, principalmente dependência de estimulantes e cocaína nas mães e problemas de álcool nos pais. Tal resultado poderia ser explicado em parte pelo fato do TDAH ter um forte componente genético e, portanto, grande probabilidade de um dos pais também terem a doença. Outra possibilidade é que uso de drogas/álcool durante a gravidez facilite o surgimento de crianças com TDAH.
O que todos os estudos demonstram é a importância de mais pesquisas a respeito do assunto e o tratamento precoce tanto do TUS em pacientes com TDAH, quanto do TDAH em pacientes com TUS. A própria melhoria dos sintomas de TDAH levaria a uma melhoria do TUS e a prevenção do uso de substância levaria menos pacientes com TDAH a desenvolver o TUS (Milberger et al, 1997; Levin e Kleber, 1995; e Rigs, 1996). A associação do TC com o TDAH produziria o mais alto índice dentro dos transtornos psiquiátricos para o desenvolvimento do TUS (Flory et al, 2003).
Levin et all (1998) destaca a prioridade de se diagnosticar os pacientes com TDAH uma vez que o diagnóstico e tratamento precoce ajudariam não só a diminuir o número de caso de pacientes com TUS, quanto a melhoria do curso e tratamento do TUS. É importante que os profissionais que trabalham com pacientes com TUS tenham em mente a possibilidade do duplo diagnóstico para que os pacientes TUS + TDAH possam se beneficiar de uma melhor condução do seu caso.
REFERÊNCIA:
Biederman J, Micck E, Farone SV, Braaten E, Doyle A.Influence of gender on attention deficit hiperaty disorder in children referred to a psychiatric clinic, Am. J. Psychiatry, 159:36-42, January 2002.
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Biederman J, Wilens T, Mick EBA, Farone SV, Weber WBA, Curtis SBA, Thornell ABA, Pfister KBA, Jetton JG e Soriana JBA. Is ADHD a risk factor for psychoactive substance use disorder? Finding from a four-year prospective follow-up study. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 36(1):21-29, Jan 1997.
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Wilens TE, Biederman J, Mick E, Faraone SV, Spencer T. Attention deficit hyperactivity disorder (ADHD) is associated with early onset substance use disorder. J Nerv Ment Dis. 185(8):475-82; Aug 1997.
Wilens TE, Spencer TJ and Biederman J. Attention –déficit/hiparativity disorder with substance disorder. In: Brown, TE. Attention-défict disorders and comorbidities in children, adolescents and adults. American Psychiatric Press, London, 2000.
Luciana Mattoso
O TDAH inicialmente era visto como um transtorno característico de crianças, em especial meninos e cujo desaparecimento dos sintomas acorreria no início da vida adulta. Porém, os estudos desenvolvidos na última década mostraram que o TDAH trata-se de uma síndrome que acomete tanto meninos quanto meninas e em muitos casos estende-se para a vida adulta (Brown, 2000). A crença desta remissão na vida adulta pode ser explicada pelo desenvolvimento por parte do paciente de uma série de estratégias que permitiriam a ele reduzir os prejuízos dos sintomas. Porém, uma análise mais profunda revela enumeras dificuldades sociais, familiares e instabilidade em vários domínios na vida destes indivíduos. Outra possível explicação para esta crença seria a dificuldade por parte dos portadores de TDAH em reconhecer seus próprios sintomas.
Os recentes estudos permitiram uma melhor compreensão não só acerca dos critérios para o diagnóstico do TDAH, mas um novo paradigma com relação ao curso e impacto dele na vida dos pacientes e das pessoas que o cercam. O TDAH não é um transtorno que acomete o paciente apenas cognitivamente, mas também envolve muitos aspectos comportamentais e afetivos/emocionais. Pacientes com TDAH costumam ter inúmeros problemas de baixa auto-estima, ter baixo desempenho acadêmico, dificuldades sociais, familiares e financeiras. Assim, o diagnóstico e tratamento precoce não visariam apenas o controle dos sintomas, mas principalmente evitar o impacto deles na vida do paciente.
Embora vários críticos aleguem haver um hiper-diagnóstico e uma hiper-medicação, os estudos recentes revelam o contrário, haveria uma grande dificuldade por parte dos profissionais em conhecerem e reconhecerem o TDAH, além de uma grande resistência ao uso de medicação. (Brown, 2000).
A prevalência do TDAH segundo o DSM IV é de 5 à 13% em crianças em idade escolar, embora haja uma grande discordância entre os autores. O TDAH é considerado uma síndrome associada a uma vulnerabilidade genética em interação com o meio-ambiente. (Golfeto et al, 2003).
Outro aspecto atualmente muito estudado e extremamente importante de ser levado em consideração ao se estudar o TDAH diz respeito a grande incidência de co-morbidades encontradas no TDAH. As principais co-morbidades encontrados com o TDAH são: comportamentos disruptivos- transtorno opositivo-desafiador e Transtorno da conduta (35 à 65%); depressão (15 à 20%); transtornos de ansiedade (25%); transtorno de aprendizagem (10-25%) e abuso de drogas (9-40%).(Brown, 2000) Tal incidência de co-morbidade aponta para a importância do estudo e do tratamento do TDAH.
A co-morbidade mais comum encontrada no TDAH são problemas relacionados com comportamento disruptivo, agressividade e delinqüência. A alta prevalência de transtorno opositivo-desafiador (TOD) e transtorno da conduta (TC) faz com que o tema mereça uma análise mais profunda. Embora o TOD e o TC sejam classificados separadamente, estes costumam ser vistos com progressão um do outro. Questiona-se, ainda, devido a esta prevalência se o TDAH, TOD e TC não seriam diferentes condições psiquiátricas ou aspectos diferenciados do mesmo fenômeno (Newcorn et al, 2000).
Em estudo recente (Swensen et al) encontrou-se a seguinte prevalência de problemas psiquiátricos em pacientes com TDAH comparado com grupo controle: 18 vs 4% de depressão; 6 vs 1% transtornos da infância, 6 vs 2% de transtorno de ajustamento, 6 vs 1% de TOD; 5 vs 0% de psicose, 4 vs 1% de TC, 2 vs 1% de abuso de substância e 1 vs 1% de ansiedade. O mesmo estudo estendeu-se aos pais de pacientes com TDAH e pais controles: 9 vs 4% de depressão, 1 vs 0% de transtorno da infância; 4 vs 2% de de outros transtornos mentais; 2 vs 1% de transtorno de ajustamento; 0 vs 0% de TOD; 1 vs 1% de psicose; 0 vs 0% de TC; 2 vs 1% de abuso de substancia e 1vs 1% de ansiedade. No mesmo estudo constatou-se que os pacientes teriam maior índice de envolvimento em acidentes e recorreriam 2.6 vezes mais a cuidados médicos (principalmente devido a abuso de substância, acidentes automobilísticos, ingestão de veneno e fraturas. Assim, pode-se perceber não só os prejuízos dos sintomas do TDAH, mas também condições secundárias importantes e o impacto nos demais membros da família.
A incidência do transtorno do uso de substância (TUS) vem atualmente destacando-se como preocupação em pacientes com TDAH, porém o tema é ainda muito controverso. Existem duas vertentes no que diz respeito ao uso de substancia em pacientes com TDAH: alguns autores acreditam que o uso de substância estaria diretamente relacionado com o TDAH, porém estudos mais recentes apontam para uma relação indireta, ou seja, o TUS estaria relacionado com o TC e seria apenas agravado pelo TDAH, como veremos a seguir.
Segundo Wilens et al (2000), 6 à 9% das crianças e adolescentes com TDAH teriam também TUS (incluindo abuso de álcool e drogas e dependência) e adultos 10 à 30%. O autor aponta a redução de julgamento, agressividade e a impulsividade como fatores de alto-risco para o envolvimento com drogas, que poderia ser ainda uma forma de auto-medicação. Biederman et al (1995) encontraram um índice de 52% de TUS em pacientes com TDAH versus 27% no grupo controle. Por outro lado, 60% dos pacientes com TC possuem altos índices de abuso de substância, incluindo álcool, maconha e outros (Pliszka et al, 2000).
O TUS também costuma ser visto como associado ao TDAH devido a desmoralização que ocorre com os pacientes (Wilens et al 2000) ou devido a alianças sociais com as quais esses indivíduos acabam se relacionando (Marshal et al, 2003).
Flory et al, 2003 defendem que o TDAH (independentemente do co-morbidade) estaria associado ao TUS e que quanto maior os sintomas de TDAH, maior o nível de TUS. Da mesma forma, os pacientes com TDAH medicados teriam menos incidência de TUS (Wilens et al 2000 e Biederman, 2003).A incidência de pacientes que preenchem os critérios para TDAH entre os pacientes que procuram tratamento para TUS é de 50% (Levin et al, 1995 e Honer et al, 1997). Schubiner et al (2000) encontraram em pacientes com TUS uma prevalência de 28% em homens e 19% em mulheres e 1/3 dos pacientes com TDAH também preenchiam critério para TC.
Por outro lado, muitos autores defendem que o TUS estaria associado ao TC e transtorno do humor (Rohde et all, 1996; Chicoat et al, 1999; Whitmore et al, 1997; e Brook et al, 1998) Assim, a associação com o TDAH daria-se de maneira indireta.
Porém, os principais estudos apontam para o fato do TDAH afetar drasticamente o curso do TUS. Pacientes com TDAH teriam um início mais precoce do uso das drogas, um curso mais rápido e menos resposta ao tratamento (Wileners et al, 1998; Chilcoat et al Breslau, 1999; Biederman et al, 1997; e Horner et al, 1997). Este início precoce ocorreria independentemente de co-morbidade (Wilens et al, 1997), haveria o uso de substancias mais pesadas (Horner et al, 1997) e contribuiria para a gravidade e persistência dos sintomas (Riggs et al, 1996).
Os estudos apontam ainda para uma diferença de gênero, as mulheres com TDAH correriam mais riscos de desenvolverem TUS do que os homens (Disney et al 1999; Biederman et al, 2002) e estaria mais associado com a ansiedade (Rohde et al, 1996) enquanto que nos homens estaria mais associado ao TC (Milberger et al, 1997). O uso de tabaco estaria da mesma forma associado principalmente com o TC, porém os pacientes com TDAH teriam um início mais precoce, com mais freqüência tornariam-se dependentes e em um período mais curto e teriam mais dificuldade em deixar a dependência e com mais freqüência passariam a utilizar outras drogas (Milberger et al, 1997; Dierker et al, 2001; e Farone et all, 1997).
Andréa et all (2003) demonstra um alto índice de uso de substância também entre os pais de pacientes com TDAH e TUS, principalmente dependência de estimulantes e cocaína nas mães e problemas de álcool nos pais. Tal resultado poderia ser explicado em parte pelo fato do TDAH ter um forte componente genético e, portanto, grande probabilidade de um dos pais também terem a doença. Outra possibilidade é que uso de drogas/álcool durante a gravidez facilite o surgimento de crianças com TDAH.
O que todos os estudos demonstram é a importância de mais pesquisas a respeito do assunto e o tratamento precoce tanto do TUS em pacientes com TDAH, quanto do TDAH em pacientes com TUS. A própria melhoria dos sintomas de TDAH levaria a uma melhoria do TUS e a prevenção do uso de substância levaria menos pacientes com TDAH a desenvolver o TUS (Milberger et al, 1997; Levin e Kleber, 1995; e Rigs, 1996). A associação do TC com o TDAH produziria o mais alto índice dentro dos transtornos psiquiátricos para o desenvolvimento do TUS (Flory et al, 2003).
Levin et all (1998) destaca a prioridade de se diagnosticar os pacientes com TDAH uma vez que o diagnóstico e tratamento precoce ajudariam não só a diminuir o número de caso de pacientes com TUS, quanto a melhoria do curso e tratamento do TUS. É importante que os profissionais que trabalham com pacientes com TUS tenham em mente a possibilidade do duplo diagnóstico para que os pacientes TUS + TDAH possam se beneficiar de uma melhor condução do seu caso.
REFERÊNCIA:
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DEPENDÊNCIA QUÍMICA
O QUE É DEPENDÊNCIA QUÍMICA
O que são as drogas?
Drogas são substâncias utilizadas para produzir alterações, mudanças nas sensações, no grau de consciência e no estado emocional.As alterações causadas pelas drogas podem variar de acordo com as características das pessoas que as usam, da substância que é utilizada, da quantidade e circunstâncias do consumo. Em geral as drogas são apenas os produtos ilegais como a maconha, a cocaína e o crack. Entretanto, para a saúde substâncias legalizadas como o álcool, o tabaco e medicamentos usados de forma abusiva podem ser igualmente perigosos.
Quando as drogas se tornam um problema?
O grande problema é que não podemos saber quem será apenas um usuário experimental, um ocasional ou um dependente. O importante é sabermos que o uso de drogas inclui riscos e problemas para o usuário, no ambiente familiar, no trabalho e no relacionamento com amigos.Trata-se de uma questão de ordem mundial que afeta as diversas camadas da sociedade e que vem crescendo sobremaneira, com implicações médicas, sociais, econômicas e políticas, e que apresenta números preocupantes. É considerada um problema de saúde pública, entretanto, pela sua complexidade deve-se envolver outros setores da sociedade civil.
Questões difíceis no diagnóstico da dependência química:
Como definir o que é normal vs o que é patológico.
Valores culturais permissivos ao consumo de drogas, principalmente as lícitas (álcool, cafeína, cigarro)
É difícil reconhecer quando o consumo da droga está comprometendo a vida do indivíduo, muitas vezes a pessoa muda seu estilo de vida para adaptar ao consumo da droga.
Quando é considerado que a pessoa é dependente?
A presença de três ou mais dos sintomas abaixo pode indicar que o indivíduo está começando a desenvolver dependência química e, portanto, deve procurar ajuda.
1- Um forte desejo ou senso de compulsão para consumir a substância.
2- Dificuldade em controlar o comportamento de consumir a substância em termos de seu início, término e níveis de consumo.
3- Um estado de abstinência fisiológico quando o uso da substância cessou ou foi reduzido, com intenção de aliviar ou evitar sintomas de abstinência.
4- Evidência de tolerância, de tal forma que doses crescentes da substância psicoativa são requeridas para alcançar os efeitos originalmente produzidos por doses mais baixas.
5- Abandono progressivo de prazeres e interesses alternativos em favor do uso da substância psicoativa, aumento da quantidade de tempo necessária para se recuperar de seu efeito.
6- Persistência no uso da substância, a desrespeito de clara evidência de conseqüências manifestadamente nocivas.
Dados Epidemiológicos:
20% da população usam substâncias psicoativas no decorrer da vida;15% no mínimo são portadores da doença da dependência química;10% a 12% desses usam mais de uma droga concomitante;A incidência de DQ é de 2 a 6 vezes maior no homem;DQ evolui do álcool para drogas mais pesadas;150 mil óbitos/ano por alcoolismo nos USA;15% dos DQ cometem suicídio (20 vezes maior que na população).
Veja mais sobre o efeito das drogas no sistema nervoso em imagens desenvolvidas pela UNIFESP virtual - Universidade Virtual da Universidade Federal de São Paulo / Escola Paulista de Medicina.
http://www.virtual.epm.br/material/depquim/animacoes.htm
O que são as drogas?
Drogas são substâncias utilizadas para produzir alterações, mudanças nas sensações, no grau de consciência e no estado emocional.As alterações causadas pelas drogas podem variar de acordo com as características das pessoas que as usam, da substância que é utilizada, da quantidade e circunstâncias do consumo. Em geral as drogas são apenas os produtos ilegais como a maconha, a cocaína e o crack. Entretanto, para a saúde substâncias legalizadas como o álcool, o tabaco e medicamentos usados de forma abusiva podem ser igualmente perigosos.
Quando as drogas se tornam um problema?
O grande problema é que não podemos saber quem será apenas um usuário experimental, um ocasional ou um dependente. O importante é sabermos que o uso de drogas inclui riscos e problemas para o usuário, no ambiente familiar, no trabalho e no relacionamento com amigos.Trata-se de uma questão de ordem mundial que afeta as diversas camadas da sociedade e que vem crescendo sobremaneira, com implicações médicas, sociais, econômicas e políticas, e que apresenta números preocupantes. É considerada um problema de saúde pública, entretanto, pela sua complexidade deve-se envolver outros setores da sociedade civil.
Questões difíceis no diagnóstico da dependência química:
Como definir o que é normal vs o que é patológico.
Valores culturais permissivos ao consumo de drogas, principalmente as lícitas (álcool, cafeína, cigarro)
É difícil reconhecer quando o consumo da droga está comprometendo a vida do indivíduo, muitas vezes a pessoa muda seu estilo de vida para adaptar ao consumo da droga.
Quando é considerado que a pessoa é dependente?
A presença de três ou mais dos sintomas abaixo pode indicar que o indivíduo está começando a desenvolver dependência química e, portanto, deve procurar ajuda.
1- Um forte desejo ou senso de compulsão para consumir a substância.
2- Dificuldade em controlar o comportamento de consumir a substância em termos de seu início, término e níveis de consumo.
3- Um estado de abstinência fisiológico quando o uso da substância cessou ou foi reduzido, com intenção de aliviar ou evitar sintomas de abstinência.
4- Evidência de tolerância, de tal forma que doses crescentes da substância psicoativa são requeridas para alcançar os efeitos originalmente produzidos por doses mais baixas.
5- Abandono progressivo de prazeres e interesses alternativos em favor do uso da substância psicoativa, aumento da quantidade de tempo necessária para se recuperar de seu efeito.
6- Persistência no uso da substância, a desrespeito de clara evidência de conseqüências manifestadamente nocivas.
Dados Epidemiológicos:
20% da população usam substâncias psicoativas no decorrer da vida;15% no mínimo são portadores da doença da dependência química;10% a 12% desses usam mais de uma droga concomitante;A incidência de DQ é de 2 a 6 vezes maior no homem;DQ evolui do álcool para drogas mais pesadas;150 mil óbitos/ano por alcoolismo nos USA;15% dos DQ cometem suicídio (20 vezes maior que na população).
Veja mais sobre o efeito das drogas no sistema nervoso em imagens desenvolvidas pela UNIFESP virtual - Universidade Virtual da Universidade Federal de São Paulo / Escola Paulista de Medicina.
http://www.virtual.epm.br/material/depquim/animacoes.htm
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Artigo sobre terapia cognitivo-comportamental
Curitiba, jul. 2004
www.utp.br/psico.utp.online
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAIS: CONCEITOS E
PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Saint-Clair Bahls
Ariana Bassetti Borba Navolar
Psicóloga Clínica.
Pós-graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva pela Unicenp
RESUMO
Este artigo apresenta princípios e conceitos que embasam a prática da Terapia Cognitivo-
Comportamental (TCC). O objetivo é contextualizar o leitor a respeito da natureza desta abordagem que vem sendo cada vez mais aplicada ao tratamento de diversos transtornos psiquiátricos.
Para tanto é necessário visitar os pressupostos teóricos da Terapia Cognitiva e da Terapia
Comportamental. A abordagem cognitiva focaliza o trabalho terapêutico sobre os fatores cognitivos que estão na etiologia e na manutenção de determinada psicopatologia, já a abordagem comportamental, através do conhecimento sobre as leis gerais do comportamento, proporciona a
compreensão dos fatores que o mantêm possibilitando meios de alterar condições inadequadas.
Também será feito um breve apanhado histórico sobre a ocorrência da chamada “Revolução
Cognitiva” na psicologia, movimento que culminou no surgimento das terapias denominadas
atualmente de cognitivo-comportamentais.
Palavras-chave: conceitos básicos, Terapia Comportamental, Terapia Cognitiva.
www.utp.br/psico.utp.online
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAIS: CONCEITOS E
PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Saint-Clair Bahls
Ariana Bassetti Borba Navolar
Psicóloga Clínica.
Pós-graduada em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva pela Unicenp
RESUMO
Este artigo apresenta princípios e conceitos que embasam a prática da Terapia Cognitivo-
Comportamental (TCC). O objetivo é contextualizar o leitor a respeito da natureza desta abordagem que vem sendo cada vez mais aplicada ao tratamento de diversos transtornos psiquiátricos.
Para tanto é necessário visitar os pressupostos teóricos da Terapia Cognitiva e da Terapia
Comportamental. A abordagem cognitiva focaliza o trabalho terapêutico sobre os fatores cognitivos que estão na etiologia e na manutenção de determinada psicopatologia, já a abordagem comportamental, através do conhecimento sobre as leis gerais do comportamento, proporciona a
compreensão dos fatores que o mantêm possibilitando meios de alterar condições inadequadas.
Também será feito um breve apanhado histórico sobre a ocorrência da chamada “Revolução
Cognitiva” na psicologia, movimento que culminou no surgimento das terapias denominadas
atualmente de cognitivo-comportamentais.
Palavras-chave: conceitos básicos, Terapia Comportamental, Terapia Cognitiva.
Abstract
This article presents concepts and founds about the Cognitive-Behavioral Therapy practice. Our
purpose is approach the reader to this kind of therapy. Cognitive-Behavioral Therapy has been
successful applied to the treatment of psychiatric disorders. Thus, it is necessary to know the
theoretical grounds from Cognitive Therapy and Behavioral Therapy. The Cognitive approach has its focus on the cognitive factors are in the etiology and maintenance of a mental disease. The Behavioral approach, through general rules about behavior, becomes possible to understand factors that keep a specific behavior and to change dysfunctions conditions. We will do a brief about the “Cognitive Revolution” in psychology, which established the called Cognitive-Behavioral Therapies.
Keywords: Behavioral Therapy, Cognitive Therapy, basics concepts.
TERAPIA CGNITIVO-COMPORTAMENTAIS: CONCEITOS E
PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Saint-Clair Bahls
Ariana Bassetti Borba Navolar
PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Saint-Clair Bahls
Ariana Bassetti Borba Navolar
A Terapia Cognitivo-Comportamental integra técnicas e conceitos vindos de duas principais
abordagens tais como a cognitiva e a comportamental. Em seguida, serão apresentados os pressupostos teóricos destas abordagens e o surgimento de um movimento integrador na psicologia que culminou no que atualmente denominam-se de terapias cognitivo-comportamentais, terapias estas que apresentam diversas aplicações no tratamento de problemas psiquiátricos.
TERAPIA COGNITIVA: PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
A Terapia Cognitiva utiliza o conceito da estrutura “biopsicossocial” na determinação e compreensão dos fenômenos relativos a psicologia humana, no entanto constitui-se como uma abordagem que focaliza o trabalho sobre os fatores cognitivos da psicopatologia .
Vem demonstrando eficácia em pesquisas científicas rigorosas além de ser uma das primeiras
a reconhecer a influência do pensamento sobre o afeto, o comportamento, a biologia e o ambiente
(Shinohara,1997; Shaw & Segal, 1999).
De acordo com a Terapia Cognitiva os indivíduos atribuem significado a acontecimentos,
pessoas, sentimentos e demais aspectos de sua vida, com base nisso comportam-se de determinada maneira e constroem diferentes hipóteses sobre o futuro e sobre sua própria identidade. As pessoas reagem de formas variadas a uma situação específica podendo chegar a conclusões também variadas.
Em alguns momentos a resposta habitual pode ser uma característica geral dos indivíduos
dentro de determinada cultura, em outros momentos estas respostas podem ser idiossincráticas
derivadas de experiências particulares e peculiares a um indivíduo. Em qualquer situação estas respostas seriam manifestações de organizações cognitivas ou estruturas. Uma estrutura cognitiva é um componente da organização cognitiva em contraste com os processos cognitivos que são passageiros (Beck, 1963; 1964).
Assim, a teoria cognitiva tem como objeto de estudo principal a natureza e a função dos aspectos
cognitivos, ou seja, o processamento de informação que é o ato de atribuir significado a algo.
O objetivo da Teoria Cognitiva é descrever a natureza de conceitos (resultados de processos
cognitivos) envolvidos em determinada psicopatologia de maneira que quando ativados dentro de contextos específicos podem caracterizar-se como maladaptativos ou disfuncionais. O objetivo da terapia cognitiva seria, ainda, o de fornecer estratégias capazes de corrigir estes conceitos
idiossincrásicos (Bahls, 1999; Biggs & Rush, 1999; Beck & Alford,2000).
No processo de psicoterapia cognitiva ocorre algo muito semelhante a testagem empírica das
teorias científicas: os sistemas de crenças pessoais são testados com relação à suas conseqüências e funcionalidade para a vida do paciente dentro de contextos específicos (Lima & Wielenska, 1993).
Este processo de testagem empírica ocorre a partir da aplicação de técnicas e conceitos desenvolvidos na teoria cognitiva e por esta razão é imprescindível, para a realização de uma terapia com bases verdadeiramente científicas, que o terapeuta tenha um embasamento teórico sólido bem como um domínio das técnicas e uma boa interação com a pessoa que buscou o tratamento, já que deve haver uma parceria terapeuta-paciente nesta investigação cognitiva (Rangé, 1998a; Beck & Alford, 2000).
A história da terapia cognitiva inicia-se em 1956 quando Aaron Beck realizou um trabalho de
pesquisa com o intuito de verificar os pressupostos psicanalíticos acerca da depressão. Para Freud (1917), pessoas deprimidas apresentavam uma “hostilidade retrofletida” ou seja, uma espécie de masoquismo ou necessidade de sofrer. Os estudos de Beck o levaram a deparar-se com resultados de outra natureza: alguns pacientes apresentaram melhoras em resposta a algumas experiências bem sucedidas e não resistiram a estas mudanças, contrariando o esperado (Beck & Alford,2000).
Isto fez com que Beck e demais pesquisadores iniciassem uma seqüência de novos e
diversos estudos sobre a depressão que passou a ser vista como um transtorno cuja principal
característica seria uma tendência negativa onde a pessoa deprimida apresenta, muito
freqüentemente, expectativas negativas com relação ao resultado de seus comportamentos e
uma visão também negativa de si mesma, do contexto em que está inserida e de seus objetivos
(Beck, Rush, Shaw & Emery, 1979). A partir disso os demais estudos desenvolveram-se de
forma a testar estratégias de modificação de tais tendências negativas existentes na depressão
bem como a extensão da testagem deste novo modelo a outros transtornos.
Beck e Alford (2000) definem cognição como a “função que envolve deduções sobre nossas experiências e sobre a ocorrência e o controle de eventos futuros” ou ainda “... o processo de identificar e prever relações complexas entre eventos, de modo a facilitar a adaptação a ambientes passíveis de mudança”. A teoria cognitiva possui dez axiomas formais que servem
de ponto de apoio para as demais proposições teóricas. O termo axioma refere-se a afirmações
que não podem ser deduzidas sendo independentes das demais afirmações existentes em uma
teoria científica. Tais axiomas serão aqui enumerados de acordo com a apresentação feita pelos
autores citados acima.
O funcionamento psicológico bem como a adaptação psicológica a determinado contexto
estão na dependência de “estruturas de cognição com significado” ou simplesmente “esquemas”.
O termo “significado” é, por sua vez, designado como o resultado da ação de interpretar uma realidade determinada e a forma de relação desta realidade com o self.
A função da atribuição de significado é a adaptação a um contexto específico. As estratégias
adaptativas são ativadas a partir da atribuição de significado já que este tem a função de “controle dos vários sistemas psicológicos” tais como o comportamental, o emocional, os sistemas
de atenção e da memória.
Ocorrem influências entre os “sistemas cognitivos” e os demais sistemas psicológicos de forma a interagirem.
Uma “categoria de significado” apresenta implicações que são padrões específicos de emoção, atenção, memória e comportamento. Este fato denomina-se “especificidade do conteúdo cognitivo”.
Os significados são construídos pelo indivíduo, ou seja, não são componentes preexistentes da realidade. No entanto tais significados podem constituir-se como corretos ou incorretos em relação a um contexto ou objetivo específicos. Os significados ditos incorretos são denominados
como “disfuncionais” ou “maladaptativos” no que se refere a ativação dos sistemas. Os erros (“distorções cognitivas” e “preconcepções”) podem acontecer tanto em relação ao conteúdo cognitivo propriamente dito (significado) como em relação ao processo de elaboração de significado (processamento cognitivo).
Existe nos indivíduos uma predisposição a fazerem construções cognitivas falhas e isto denomina-se “vulnerabilidade cognitiva”. Em decorrência da especificidade cognitiva uma vulnerabilidade cognitiva específica predispõe a pessoa a uma síndrome específica.
Os significados maladaptativos, dos quais resultam a psicopatologia, são construídos em relação
ao que é denominado de “Tríade Cognitiva” ou seja em relação ao self, ao ambiente (experiência
atual) e ao futuro (objetivo).
Existem dois tipos de significado: o “significado público” que pode não ter muitas implicações
para o indivíduo (é o significado objetivo de um evento) e o “significado pessoal” ou privado.
O significado pessoal é construído a partir de implicações e generalizações relacionadas a ocorrência de um evento.
Existem três níveis de cognição: o nível pré-consciente, o nível consciente e o nível metacognitivo. De acordo com esta abordagem, o nível consciente desempenha o papel mais importante na melhora do paciente.
Os esquemas não são nunca adaptativos ou maladaptativos sendo classificados assim com
relação a um contexto específico. Assim os esquemas evoluem para facilitar a adaptação da pessoa ao ambiente no qual está inserida.
Estes são portanto os dez axiomas formais da teoria cognitiva, no entanto, nesta abordagem os axiomas não são vistos como elementos estáticos podendo evoluir de acordo com o surgimento de novas evidências.
Em diversos transtornos tais como o transtorno de pânico, a depressão e o transtorno bipolar de humor ocorre um prejuízo no funcionamento normal da atividade de organização cognitiva (Bahls, 1999; 2003). Nos transtornos de ansiedade, por exemplo, existe o impedimento de uma tendência inata a ampliar o foco de atenção (ampliar o universo de fenômenos aos quais um organismo fica atento) de forma que este organismo atua como se estivesse em uma situação de ameaça real sem poder dar outros significados à situação. Em situações de ameaça à sobrevivência esta tendência é bloqueada de forma que o indivíduo foca sua atenção sobre aquilo que está o ameaçando, o que é extremamente adaptativo do ponto de vista evolutivo (Lotufo Neto, 1993b; Rangé, 1998b). Assim, nos transtornos de ansiedade, o indivíduo sente-se intensamente vulnerável ao que considera serem ameaças, esta sensação o leva a esquivar-se de situações potencialmente ansiogênicas para ele.
A teoria cognitiva é vista como pertencente às teorias construtivistas pois vê o homem como
um ser que constrói seus significados sobre os fatos e portanto constrói sua própria realidade já que a forma como este interpreta seu mundo determinará a maneira com que ele irá comportar-se.
TERAPIA COMPORTAMENTAL: PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
A terapia comportamental embasa-se nas teorias sobre o comportamento que se desenvolveram
a partir do início do século XX e que na década de 50 teve grande repercussão através obra de Skinner.
O desenvolvimento da teoria comportamental permitiu o conhecimento a respeito das leis
gerais do comportamento tornando-o mais previsível. Tal conhecimento é o ponto no qual a terapia comportamental se apóia para o desenvolvimento de sua prática clínica. Nesse sentido, é essencial o conhecimento a respeito de termos e conceitos relativos a esta abordagem.
Dentro da perspectiva comportamental existem dois tipos de comportamento: o conhecido
como “comportamento respondente” (denominado assim por responder a um estímulo específico
como os comportamentos reflexos, por exemplo) que tem caráter involuntário e o “comportamento operante” que tem caráter voluntário.
O comportamento operante é aquele que modifica o ambiente, estando sujeito a alterações a
partir das conseqüências de sua atuação sobre o ambiente. Ou seja, as probabilidades futuras de um operante ocorrer novamente está na dependência das conseqüências que foram geradas por ele (Skinner,1953).
Além do conhecimento sobre as formas de comportamento, o conceito de “condicionamento”
desempenha papel fundamental dentro desta abordagem. Este conceito traz a idéia de que os
comportamentos são mutáveis, ou seja, que a partir de mudanças nas condições do ambiente podem ser alterados. Alguns fatores estão envolvidos no condicionamento operante: presença de
reforçadores ou de situações aversivas (Lotufo Neto, 1993a; Lettner, 1998).
Mediante uma conseqüência reforçadora a probabilidade de que um operante ocorra novamente
é aumentada. O padrão de reforçamento também é um fator que influencia na freqüência em
que ocorre um comportamento operante. O reforço pode ser contínuo ou seja, ocorrer sempre
após determinada resposta ou intermitente onde acontece de acordo com uma determinada periodicidade.
O comportamento tende a ocorrer numa freqüência maior quando está vinculado a um
esquema de reforçamento intermitente (Skinner,1953).
Ainda com relação ao condicionamento operante, situações que antecedem determinada resposta
e que tenham sido vinculadas a um reforçamento constituem-se em fatores que podem governar
o comportamento do indivíduo. Esta situação denomina-se estímulo discriminativo, pois, permite que o sujeito consiga discriminar no ambiente as situações que garantem o reforço após a emissão de determinada resposta. Além desta capacidade de discriminação também é importante o conhecimento sobre o conceito de generalização: um organismo é capaz de estabelecer diferenças e semelhanças entre estímulos e a partir disso comportar-se da mesma forma em ambientes diferentes (Lotufo Neto, 1993a; Rangé,1998a; Bahls, 2003).
No condicionamento operante pode ser utilizado um procedimento conhecido como “modelagem”
que consiste na forma progressiva com que o repertório comportamental de um organismo vai sendo modificado através de reforçamentos sistemáticos de comportamentos que se assemelham
ao comportamento final ao qual se quer atingir.
Situações ditas aversivas também produzem determinados tipos de comportamentos. A punição,
por exemplo, é uma delas: a punição caracteriza-se pela retirada de um estímulo reforçador
diante de determinada resposta ou pela apresentação de um estímulo aversivo. De acordo com
Skinner (1953) a punição somente produz diminuição de um dado comportamento temporariamente e nas situações em que o agente punitivo estiver presente. Assim a punição não é eficiente para a remoção de um comportamento, podendo gerar outros comportamentos indesejados tais como a agressividade. A utilização do reforço positivo é mais adequada quando se quer promover uma mudança prolongada e eficaz do repertório comportamental do indivíduo.
Frente a um estímulo aversivo, o indivíduo pode emitir comportamentos de fuga (evitação do
estímulo na presença deste) ou de esquiva (evitação quando o estímulo aversivo ainda não está
presente). Outra situação aversiva é a frustração , que consiste na situação em que o estímulo
reforçador é inacessível ao organismo por fatores de impedimento diversos, dentre eles o fator
tempo ( situações em que o indivíduo precisa esperar para receber o reforço), ou situações de
conflito onde a opção por determinado tipo de reforço implica necessariamente na frustração de
não obter o outro (Rangé, 1998a).
Apresentaram-se aqui alguns dos conceitos pertencentes à abordagem comportamental que
auxiliam na compreensão das leis que regem o comportamento, base teórica para a prática clínica
nesta abordagem.
TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL: DESENVOLVIMENTO E PRESSUPOSTOS
TEÓRICOS
As bases teóricas das terapias cognitivo-comportamentais passaram a ser desenvolvidas no
início do século XX com o surgimento do evolucionismo de Darwin e de uma crescente realização
de estudos empíricos sobre o comportamento.
Na década de 70 houve um grande desenvolvimento e reconhecimento da terapia comportamental devido ao surgimento de técnicas novas especialmente no tratamento de fobias,
obsessões e disfuncões sexuais (Lima & Wielenska, 1993). De acordo com Hawton, Salkovskis,
Kirk e Clarck (1997), foi nesta época que Lang, Rachman e outros desenvolveram a idéia de que um problema psicológico poderia ser compreendido sob três enfoques diferentes (ou “três sistemas”) ligados entre si tais como os sistemas comportamental, cognitivo/afetivo e fisiológico. Esta idéia representou uma quebra com a visão unitária dos problemas psicológicos que até então existia.
Hammen e Glass (1975), citados por Hawton e cols. (1997), desenvolveram estudos com
pacientes depressivos e perceberam que apesar de os pacientes realizarem com maior freqüência
atividades agradáveis (ao contrário do que se pensava a partir de trabalhos anteriores), era comum que avaliassem negativamente tais atividades e o seu desempenho em realizá-las. Estes fatos chamaram a atenção para influência dos fatores cognitivos na forma como um indivíduo reage aos fatores do meio e na constituição das psicopatologias, contribuindo assim para que muitos terapeutas comportamentais passassem a utilizar também conceitos e técnicas cognitivos na prática clínica.
A REVOLUÇÃO COGNITIVA NA PSICOLOGIA
Alguns autores influenciaram, de maneira mais definitiva, na consolidação da abertura da
ciência do comportamento aos fatores cognitivos. Assim, Bandura (1979) foi um autor que desempenhou um papel fundamental. Este autor desenvolveu trabalhos a respeito da “aprendizagem observacional” onde um indivíduo aprende eficazmente a partir da observação de um comportamento emitido por outro e de sua realização posterior. Para o autor o modelo de auto-regulação (ou de auto-eficácia) está relacionado com este tipo de aprendizagem pois uma mudança voluntária de comportamento sempre será mediada pela percepção do sujeito a respeito de seu desempenho (capacidade de adquirir um dado comportamento).
Estudos posteriores a respeito do conceito de autocontrole (que seria constituído de três
etapas auto-observação, auto-avaliação e auto-reforço) também tiveram seu papel para a realização de inúmeras pesquisas na quais foram definidos muitos construtos de natureza cognitivista. Outro autor importante neste processo foi Meichembaum (1977) que partindo de uma abordagem exclusivamente cognitiva desenvolveu a idéia de “treinamento instrucional” baseado na hipótese de que mudanças relativas a determinados comportamentos ocorrem através de alterações no tipo de instrução que um indivíduo dá a si mesmo, de forma a evitar pensamentos disfuncionais e buscar os adaptativos.
A Terapia Cognitiva de Beck é considerada, atualmente, como a principal abordagem cognitiva.
Os trabalhos iniciais de Beck, como foi visto anteriormente, enfocaram a depressão. De acordo
com a abordagem cognitiva de Beck, os pensamentos e avaliações negativos, comumente encontrados em pacientes com depressão não constituem um sintoma somente, mas são fatores que estão na própria manutenção desta psicopatologia. Em conseqüência desta visão, a depressão na Terapia Cognitiva, assim como os demais transtornos psiquiátricos, é tratada levando o paciente a identificar e alterar estes pensamentos disfuncionais (Biggs & Rush, 1999; Shaw & Segal, 1999: Bahls & Bahls, 2003).
A partir da influência destes autores, a pesquisa e a prática da abordagem comportamental
passou a apresentar algumas mudanças, ao menos em parte. Referindo-se a esse fato Rangé (1998) comenta: (...) a disseminação da chamada revolução cognitiva na pesquisa básica em psicologia, provocou também uma revolução cognitiva no behaviorismo . Aos poucos modelos cognitivos como os de Ellis (1982), Bandura (1969, 1977, 1989) e Beck e colaboradores (1977, 1985, 1990, 1993) foram sendo introduzidos e progressivamente aceitos.
Desta forma, as terapias designadas de terapias cognitivo-comportamentais (TCC), denominam-
se assim porquê constituem uma integração de conceitos e técnicas cognitivas e comportamentais. Atualmente dispõe-se de uma ampla gama de tratamento de diversos problemas psiquiátricos tais como transtornos de ansiedade, depressão, disfunções sexuais, distúrbios obsessivos-compulsivos e alimentares (Hawton e cols, 1997; Biggs & Rush, 1999). Na abordagem cognitivocomportamental tem sido desenvolvidos muitos trabalhos de pesquisa a fim de se verificar experimentalmente a eficácia dos diversos tipos de tratamento.
Ao longo dos anos de pesquisa foram desenvolvidas e testadas diversas formas de tratamentos
na TCC. As terapias utilizadas diferem umas das outras de acordo com o enfoque predominantemente cognitivo ou comportamental.
Apesar da diversidade destas terapias todas compartilham do mesmo pressuposto teórico, ou
seja, que mudanças terapêuticas acontecem na medida em que ocorrem alterações nos modos
disfuncionais de pensamento. Neste ponto de vista, o mundo é considerado como constituinte de
uma série de eventos que podem ser classificados como neutros, positivos e negativos, no entanto a avaliação cognitiva que o sujeito faz destes acontecimentos é o que determina o tipo de resposta que
será dada na forma de sentimentos e comportamentos. Desta forma, a TCC da uma grande ênfase aos pensamentos do cliente e a forma como este interpreta o mundo.
A Terapia Cognitivo-Comportamental centra-se nos problemas que estão sendo apresentados
pelo paciente no momento em que este procura a terapia, sendo que seu objetivo é ajudá-lo a aprender novas estratégias para atuar no ambiente de forma a promover mudanças necessárias. A metodologia utilizada na terapia é de uma cooperação entre o terapeuta e o paciente de forma que as estratégias para a superação de problemas concretos são planejadas em conjunto (Lima &
Wielenska, 1993). Na Terapia Cognitivo-Comportamental procura-se definir claramente objetivos, especificando-os de acordo com os problemas e questões trazidas pelo paciente .
O ponto de partida do tratamento é a fonte de sofrimento do cliente, ou seja, a partir das distorções que estão ocorrendo na forma do sujeito avaliar a si mesmo e ao mundo. Denominam-se “esquemas” a base para a avaliação das experiências. As estruturas cognitivas organizam-se em níveis nos quais os esquemas encontram-se no núcleo. Durante a terapia procura-se explorar cada um destes níveis de organização, partindo dos pensamentos automáticos até chegar ao sistema de crenças do sujeito. Então as crenças são testadas a partir de argumentos e propostas de exercícios que o paciente realizará durante a terapia e em demais contextos (Shinohara, 1997).
Um dos objetivos da TCC é corrigir as distorções cognitivas que estão gerando problemas ao indivíduo e fazer com que este desenvolva meios eficazes para enfrentá-los. Para tanto são utilizadas técnicas cognitivas que buscam identificar os pensamentos automáticos, testar estes pensamentos e substituir as distorções cognitivas. As técnicas comportamentais são empregadas para modificar condutas inadequadas relacionadas com o transtorno psiquiátrico em questão .
CONCLUSÕES
Este artigo procurou trazer informações a respeito das terapias cognitivo-comportamentais e
as bases nas quais se fundamenta a prática desta abordagem. Para tanto foi necessário trazer os
conceitos das terapias Cognitiva e Comportamental. A partir desta revisão pôde-se observar que a TCC é uma abordagem eclética ao integrar conceitos e técnicas de duas abordagens diferentes tanto no que se refere aos pressupostos teóricos quanto na forma como se dá a prática psicoterápica. A Terapia Cognitiva é uma abordagem classificada como mentalista, no sentido de que vê os fatores cognitivos como os principais fatores envolvidos na etiologia dos transtornos psiquiátricos. Já a abordagem comportamental valoriza os fatores ambientais e a forma como se dá a interação de um organismo com o meio. Apesar das divergências iniciais entre estas abordagens acabou ocorrendo o que foi conhecido como a revolução cognitiva na psicologia, à qual muitos pesquisadores e psicoterapeutas acabaram aderindo.
Pesquisas na área e a própria prática da TCC vem mostrando que, apesar das diferenças, a
integração destas duas abordagens vem apresentando resultados satisfatórios e demonstrando sua viabilidade.
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